Paulo e a reunião no primeiro dia da semana em Atos 20:7 

Os cristãos do século I d.C. guardavam o primeiro dia da semana como dia de culto, conforme diz Atos 20:7? [Os comentários em colchetes são meus. – IS]

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“No primeiro dia da semana”. No grego, a expressão é a mesma que ocorre em Mateus 28:1. Não há dúvida de que corresponde, pelo menos de modo geral, ao domingo. Contudo, os comentaristas se dividem quanto à noite em que ocorreu a reunião: depois do domingo [nosso atual domingo à noite] ou antes dele [nosso atual sábado à noite].

Aqueles que favorecem o ponto de vista de que a reunião ocorreu no domingo à noite afirmam que Lucas, provavelmente um gentio, usou a contagem de tempo romana, segundo a qual o dia se iniciava à meia-noite [do nosso atual sábado]. Por meio desse sistema de contagem do tempo, uma reunião na noite do primeiro dia da semana só poderia ser no domingo à noite. Eles também declaram que a sequência do versículo, “no primeiro dia da semana” e “no dia imediato”, sugere que a partida de Paulo ocorreu no segundo dia da semana; se esse for o caso, então a reunião só pode ter acontecido no [atual] domingo à noite. Também se pode observar que João chama a noite de domingo de “primeiro dia da semana” (Jo 20:19), muito embora, segundo o sistema judaico de contagem do tempo, já fosse o segundo dia da semana. É possível que Lucas tenha usado a expressão com o mesmo sentido aqui.

Outros comentaristas, inclusive Ellicott, Conybeare e Howson, e A. T. Robertson preferem compreender que a reunião ocorreu na noite anterior ao domingo. Uma vez que a contagem de tempo judaica marca o início do dia no pôr do sol, a parte escura do primeiro dia da semana corresponderia à noite anterior ao domingo, ou seja, ao sábado à noite. Tal sistema de contagem continuou a ser usado pelos cristãos por séculos e é razoável pensar que Lucas, sendo gentio ou não, o tenha empregado em sua narrativa. Em consequência disso, a reunião de Paulo em Trôade teria começado após o pôr do sol no sábado à noite e se estendido pela madrugada. No dia seguinte, o domingo, o apóstolo teria caminhado até Assôs [essa compreensão é expressa pela Nova Tradução na Linguagem de Hoje: “No sábado à noite nós nos reunimos com os irmãos para partir o pão.” (At 20:7, NTLH)].

Alguns escritores encontram nesta passagem um indício da observância do domingo no início da era cristã. O fato de Lucas ter usado o sistema de contagem de tempo judaico ou romano tem pouca importância sobre essa questão, pois ele diz de forma clara que a reunião aconteceu “no primeiro dia da semana”. Caso estivesse usando o sistema judaico, a noite anterior ao domingo seria considerada o primeiro dia e; caso tenha empregado a marcação romana de tempo, a noite depois do domingo continuaria a corresponder ao primeiro dia. O fator significativo aqui, no que se refere à observância do domingo no início do cristianismo, é se esta reunião no primeiro dia constitui uma prática cristã regular ou se simplesmente acabou acontecendo no primeiro dia por causa da visita de Paulo.

A análise de toda a narrativa não apoia a visão de que Paulo fez essa reunião por se tratar do primeiro dia da semana. Ele estivera em Trôade por sete dias e com certeza já havia se, encontrado com os cristãos de lá mais de uma vez. Quando estava prestes a partir, o mais lógico seria realizar uma reunião de despedida e celebrar a Ceia do Senhor com eles. O comentário de Lucas de que isso ocorreu no primeiro dia da semana, em vez de consistir numa nota da observância do domingo, está em harmonia com toda a série de registros cronológicos com os quais o autor preenche a narrativa dessa viagem (ver At 20:3, 6, 7, 15, 16; 21:1, 4, 5, 7, 8, 10, 15). Portanto, a melhor maneira de entender essa passagem é que a reunião ocorreu não por ser domingo, mas porque Paulo “devia seguir viagem no dia imediato” (At 20:7). Lucas inclui o relato da reunião por causa da experiência de Êutico e a observação de que se tratava do “primeiro dia da semana” é mera continuação do registro cronológico da jornada de Paulo.

Ao avaliar se essa passagem é uma evidência da guarda do domingo no início do cristianismo, Augustus Neander, destacado historiador da igreja observa: “A passagem não é totalmente convincente, pois a partida iminente do apóstolo pode ter unido a pequena igreja numa refeição fraterna e, nesta ocasião, o apóstolo fez seu último discurso, embora não tenha havido nenhuma celebração particular do domingo no caso” (The History of the Christian Religion and Church, trad. Henry John Rose, vol. 1, p. 337).

[Fonte: CBASD – Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, vol. 6, p. 412, 413, disponível no blog Reavivados Por Sua Palavra.]

Os discípulos não se reuniam no primeiro dia da semana? Veja Atos 20:7.

O motivo pelo qual essa reunião é mencionada na narrativa é que Paulo estava indo embora no dia seguinte e operou um milagre poderoso ao ressuscitar Êutico. Fica claro que essa reunião ocorreu à noite. É a parte escura do primeiro dia da semana (verso 8). Nos tempos bíblicos, a parte escura do dia precedia a parte clara (Gênesis 1:5). O sábado era observado do pôr do sol da sexta-feira ao pôr do sol do sábado (Levítico 23:32; Marcos 1:32). Se essa reunião ocorreu na parte escura do primeiro dia da semana, na verdade, foi uma reunião de sábado à noite. Paulo havia se reunido com os crentes durante todo o sábado. Ele partiria no dia seguinte, um domingo. Por isso, a reunião se estendeu até tarde no sábado à noite. No dia seguinte, um domingo, Paulo viajou a pé para Assôs, de onde navegou até Mitilene. A versão de Atos 20:7 na Nova Tradução na Linguagem de Hoje também confirma essa reunião como ocorrida no sábado à noite, com Paulo viajando no domingo. Se Paulo considerasse o domingo um dia sagrado em honra à ressurreição, por que ele passaria o dia inteiro viajando, e não cultuando? O relato bíblico diz que Paulo guardava o sábado (Atos 13:42-44; 16:12, 13; 17:2; 18:4).

[Fonte: Mark Finley, “Tempo de Esperança“, p. 73, 74, disponível aqui. O autor parte do pressuposto que Lucas adotou uma contagem judaica dos dias, ver Lc.23:53-56.]

Sábado à noite ou domingo de manhã? Atos 20:7 indica que os cristãos primitivos se reuniam para adorar a Deus no primeiro dia da semana?

Esta passagem tem sido usada pelos guardadores do domingo como argumento de que no primeiro século o sábado do sétimo dia foi substituído pelo primeiro dia da semana. Argumentam também que, segundo esse versículo, a igreja celebrou a santa ceia no domingo. Em Atos 20 enfrentamos três problemas: (1) o dia da reunião; (2) o propósito da reunião; e (3) a referência ao primeiro dia da semana.

1. Dia da reunião: A reunião foi realizada “no primeiro dia da semana”. A menção das lâmpadas no cenáculo (verso 8) e a referência à meia-noite (verso 7) indicam que essa era uma reunião de domingo à noite. Identificar o momento específico ao qual Lucas estava se referindo é um pouco mais difícil. Se ele usou o calendário judeu, segundo o qual os dias eram contados de pôr do sol a pôr do sol, domingo à noite seria o que chamamos de sábado à noite (a noite após o sábado). Se usou o calendário romano, segundo o qual os dias eram de contados de amanhecer a amanhecer, domingo à noite seria o nosso domingo à noite. Os que defendem o domingo argumento que Lucas usou o calendário romano. O problema é que o primeiro dia da semana nesse calendário foi sábado e não domingo. Eles são forçados a argumentar que Lucas combinou o tempo romano (madrugada a madrugada) com o calendário judeu, em que o primeiro dia foi domingo. Isso é altamente improvável. A melhor hipótese é que Lucas tenha usado o calendário judeu (veja Lucas 23:53-56) e que, nesse caso, a reunião aconteceu durante o chamamos de sábado à noite (primeiro dia da semana após o pôr do sol). Como veremos, isso é importante.

2. Propósito da reunião: Esse não era um dia regular de culto. Primeiro, o texto diz que Paulo se encontrou com eles porque “pretendia partir no dia seguinte” (Atos 20:7, NVI). A caminho de Jerusalém, Paulo e seus companheiros haviam decidido passar alguns dias em Trôade e então estavam prontos para partir. Era uma reunião de despedida.

Segundo, falando abertamente, a reunião não era um culto de adoração – não há referências a oração e cânticos – mas um longo seminário durante o qual Paulo interagia com o auditório. Dois verbos descrevem o que Paulo estava fazendo: “falado” (versos 7 e 9 – “dialegomai”) e “falando” (verso 11 – “homileo”). O verbo “dialegomai” (“argumentar”, “instruir”) expressa a ideia de arrazoar e envolver outros no diálogo. Paulo fez isso na sinagoga (Atos 17:2; 18:4; 19:8) e no mercado (17:17). “Homileo” (“falar”, “conversar”) indica diálogo e interação (Lucas 24:14 e 15; Atos 24:26). Nos tempos apostólicos, isso significava “pregar”. Ambos os verbos indicam que Paulo estava participando de um diálogo com os crentes, instruindo e respondendo às perguntas que lhe faziam.

Terceiro, a frase “partir o pão” não se refere necessariamente à santa ceia. A frase era comum entre os judeus para indicar uma refeição (Lucas 9:16; 22:19; Atos 2:42, 47; 27:35). No segundo século, a frase se tornou uma expressão técnica para a santa ceia, mas essa reunião, em particular, foi um jantar de despedida, à meia-noite, antes da partida de Paulo.

3. Primeiro dia da semana: A referência a esse dia específico é quase casual, usada para datar o evento. Lucas gostava de datar os eventos (Atos 20:6, 15 e 16; 21:1, 4 e 15). Mais importante é a implicação de que o dia anterior era sábado, durante o qual Paulo não viajou. Portanto, ele esperou até o domingo para viajar.

Podemos resumir a sequência de eventos como segue: Durante o sábado Paulo esteve adorando com os crentes; à noite, após o pôr do sol (no primeiro dia da semana), ele se encontrou com os fiéis para instruí-los e responder suas perguntas. A morte e ressurreição do jovem prolongou a reunião. Paulo retornou ao cenáculo e continuou ensinando. Cedo na manhã seguinte, eles tiveram uma refeição e finalmente partiram.

Talvez o maior interesse de Lucas tenha sido o de descrever o impacto que o milagre realizado por Paulo causou sobre a igreja. Ao fazer isso, Lucas colocou o fato em seu contexto histórico: aconteceu em Trôade antes de Paulo partir, no primeiro dia da semana. Obviamente ele não estava promovendo a observância do domingo.

[Fonte: Angel Manuel Rodríguez, Revista “Adventist World” – Setembro 2015, disponível aqui.]

F.F. Bruce acredita ser este [Atos 20:7] “o primeiro texto do qual se pode inferir com razoável certeza que os cristãos se reuniam regularmente para adoração naquele dia.” [25] Mas o conteúdo do próprio texto não parece ser tão convincente quanto Bruce gostaria que fosse.

Retornando de sua terceira viagem missionária (ver At 18:24-21:17), Paulo passou por Trôade, onde participou de uma reunião que “sugere mais uma ocasião extraordinária do que um costume habitual”. [26] Atos 20 esclarece que era uma reunião noturna, pois o texto bíblico afirma que “havia muitas lâmpadas no cenáculo” onde estavam reunidos (v.8). Ademais, é difícil precisar se a reunião ocorreu no [atual] sábado à noite, considerado pelos judeus como já sendo o “primeiro dia da semana” ou no [atual] domingo à noite, considerado pelos romanos como sendo ainda domingo. [27] Seja como for, o fato é que o discurso inicial de Paulo prolongou-se “até meia-noite” (v.7), quando o jovem Êutico morreu, após cair da janela do “terceiro andar abaixo”, e Paulo o ressuscitou (v.9, 10). Foi somente de madrugada que Paulo “partiu o pão, e comeu, e ainda lhes falou largamente até ao romper da alva” (v.11).

Gerhard F. Hasel afirma que essa foi apenas “uma reunião de despedida que se estendeu até depois da meia-noite (v.7) e o partir dificilmente pode ser considerado a Ceia do Senhor.” [28] Mas outros comentaristas insistem que o ato de partir “o pão” deve ser considerado “uma refeição de companheirismo em cujo transcurso foi celebrada a eucaristia” [29] ou a própria “Ceia do Senhor” [30]. Isso levanta uma questão básica: se a celebração de uma ceia no “primeiro dia da semana” confirma a santidade daquele dia, por que então a celebração original da ceia pelo próprio Senhor, na quinta-feira da semana da paixão (Mt 26:17-30), não acabou instituindo esse dia como o novo dia do Senhor? Seja como for, o ato de partir o pão em Trôade aconteceu de madrugada, em um horário totalmente incomum, e esse ato em si não atribuiu nenhuma santidade especial ao dia em que ocorreu; caso contrário, deveríamos comemorar semanalmente a quinta-feira, na qual a Ceia do Senhor foi instituída.

Referências:

[25] F. F. Bruce, The Book of the Acts, ed. rev., The New International Commentary on the New Testament (Grand Rapids: Eedrdmans, 1988), 384.

[26] Samuel Bacchiocchi, From Sabbath to Sunday: A Historical Investigation of the Rise of Sunday Observance in Early Christianity (ROma: Pontifical Gregorian University Press, 1977), 107.

[27] Willy Rordorf, Sunday: The History of the Day of Rest and Worship in the Earliest Centuries of the Christian Church, trad. A.A.K. Graham (Londres: SCM, 1968), 201.

[28] Hasel, “Sabbath”, em Freedman, ed., The Anchor Bible Dictionary, 5:855.

[29] Bruce, The Book of the Acts (ed. rev.), 384.

[30] Russell N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado Versículo Por Versículo (Guaratinguetá: A Voz da Bíblia, s.d.), 3:436.

[Fonte: Alberto R. Timm, “O Sábado na Bíblia”, p.67, 68. Você pode adquiri-lo aqui.]

Conclusão: se deixarmos o texto falar por si só, não “forçando a barra” parar dizer “isso” ou “aquilo”, veremos que Atos 20:7 não sustenta de forma alguma a ideia da substituição do culto sabático pelo culto dominical no início da Igreja cristã primitiva.

Quer saber mais sobre o verdadeiro dia de guarda na Bíblia? Veja o vídeo abaixo.

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