Ética cristã e os dez mandamentos

Chegamos, finalmente, na unidade final do nosso curso sobre ética cristã. Até aqui, você foi introduzido a conceitos essenciais para nossa discussão e está apto para definir termos como “moral”, “ética”, “ética teleológica”, “ética deontológica” etc. Além disso, você compreende muito bem o fundamento cristão para o comportamento correto: a vontade de Deus. Nesta última unidade, todos os conceitos acima e outros que estudamos serão colocados em prática! Sim, neste momento, teremos a oportunidade de compreender como o nosso estudo pode ser útil para a resolução de problemas éticos a partir de uma perspectiva cristã. Para cumprir com esse objetivo, iremos estudar o ícone da ética cristã e, sem sombra de dúvidas, o código moral mais influente na sociedade ocidental: o Decálogo (ou seja, os dez mandamentos).

Neste ponto, preliminarmente, é importante esclarecer de maneira mais precisa o que pretendemos fazer, para que o estudante não se perca no meio do caminho e o estudo do Decálogo seja útil à ética cristã.

  1. Em primeiro lugar, vamos “problematizar” o Decálogo. Isto é, vamos lê-lo de forma crítica a fim de levantar algumas possíveis questões que ele comunica à sociedade de nossa época. Essa fase é essencial para iniciarmos o processo de reflexão filosófica e científica do comportamento, ou seja, a própria ética cristã.
  2. Em segundo lugar, vamos eleger um dentre os dez mandamentos para compreender melhor as suas características com a finalidade de aplicá-lo melhor ao nosso contexto. Para essa experiência, escolhemos o quarto mandamento, o do sábado, por estar especialmente relacionado à denominação adventista.
  3. Em terceiro e último lugar, pretenderemos enfatizar o principal fator para a resolução das principais dificuldades que envolvem os cristãos e o cumprimento da moral cristã a partir do Decálogo, uma vez mais com foco especial no exemplo que elegemos no início.

Com esses três passos em mente, convidamos o discente à última reflexão do curso de maneira prática. Queremos lembrar que o ato de questionar o Decálogo não é uma atitude de irreverência, mas uma tentativa de torná-lo ainda mais claro para a nossa prática diária.

Problematização do Decálogo

O Decálogo, ou seja, os dez mandamentos, é o conjunto de preceitos esculpidos em duas tábuas e conferidas a Moisés, na ocasião do êxodo do povo hebreu do Egito. Segundo o texto bíblico, essas leis foram escritas pelo próprio dedo de Deus (Êx 31:18) e, portanto, podem ser consideradas como leis de Sua própria autoria, independentemente de qualquer elucubração humana. A força do Decálogo está justamente nesse aspecto divino! Não é dito em ocasião alguma que as outras leis promulgadas foram escritas pelo “dedo de Deus”, embora fossem muito importantes para a sociedade israelita. Além disso, o Decálogo foi escrito nos moldes dos “tratados hititas”, ou seja, pode ser considerado um documento muito antigo que exige uma conduta moral específica como contrato de relacionamento entre um povo e o seu rei (ver DAVIDSON, 1995).

É do conhecimento geral que o Decálogo possui importância primordial no contexto bíblico. Ele é considerado como o código de conduta moral mais importante em duas grandes religiões monoteístas do mundo: o judaísmo e o cristianismo – além de ser respeitado por diversas outras religiões não cristãs. Neste momento, vamos expor em ordem as principais afirmações do Decálogo com o intuito de visualizar seus preceitos com mais objetividade (conforme o encontramos em Êx 20):

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Os dez mandamentos conforme Êxodo 20:1-17

Os dez preceitos acima, embora vastamente reconhecidos como leis morais universais e atemporais, possuem algumas peculiaridades que necessitam ser problematizadas, a fim de que cada um deles seja cabalmente compreendido e aplicado à vida diária. Por exemplo, ao exigir “não terás outros deuses diante de mim”, o que o mandamento reconheceria como um “deus”? Ora, na antiguidade isso faria muito mais sentido, visto que o contexto de henoteísmo e politeísmo era muito vasto! Essa afirmação teria muito mais significado para uma sociedade que possuía inúmeros deuses. Contudo, em nosso contexto, principalmente no ocidente, raríssimas são as ocasiões em que alguém acredita em outro deus, se não o referido pelo judaísmo ou pelo cristianismo. Podem até crer em uma “energia” ou em “Alá”, mas a referência ao Deus da Bíblia não será tão distinta, e o pensamento estará normalmente nos moldes monoteístas. Nesse caso, para que o primeiro mandamento fizesse mais sentido para o nosso contexto, teríamos que compreender o conceito de “deus” para, finalmente, aplicarmos a uma realidade em que não existe uma “guerra de deuses” e, portanto, não há a necessidade de escolher um entre muitos. Seria tarefa da ética cristã esforçar-se nesse sentido.

Vamos considerar também, aleatoriamente, o terceiro mandamento, “não tomarás o nome do teu Deus em vão”. Esse mandamento tornou-se tão obscuro com o passar dos anos que muitos cristãos o interpretam como uma espécie de proibição de falar o nome de Deus em atividades corriqueiras! Ou seja, quando alguém se assusta e exclama “Ah, meu Deus!” ela é acusada de cometer um pecado contra o terceiro mandamento por ter se utilizado do nome de Deus em uma situação comum. Assim, para muitos cristãos, esse mandamento fala a respeito da santidade do nome de Deus e da necessidade de pronunciá-lo apenas em ocasiões solícitas. Ora, é óbvio que o mandamento não está relacionado a isso! Mesmo assim, é interessante notar que a “obscuridade” do mandamento ocasionou uma interpretação equivocada da lei e, portanto, conduziu muitos cristãos a preocupações morais que estavam muito distantes dos ideais. A meu ver, é muito provável que esse mandamento fale sobre a necessidade do crente de agir em conformidade com o nome que representa. Por estar “representando” a vontade de Deus na Terra, ele deveria agir como quem “carrega o seu nome”. Ainda assim, cabe à ética cristã compreender o contexto da época e aplicar esse mandamento à nossa realidade da melhor forma possível.

Para comentar ainda outros mandamentos aleatórios, poderíamos questionar o mandamento “não matarás”. Esse mandamento inclui também os animais? O que falar, então, dos insetos? Não poderei matar baratas? E se em uma rara ocasião, por acaso, em um contexto de risco, eu reaja contra um assassino e o mate? Seria essa ação uma quebra do sexto mandamento ou não? Se não, o que tornaria a autodefesa uma justificativa para matar alguém? O aborto estaria relacionado a esse mandamento? Seria o feto uma “vida” em si, ou apenas um potencial para isso? Além disso, poderíamos questionar o oitavo mandamento, “não furtarás”, da mesma forma: Seria pecado furtar um pão para alimentar o meu filho, que está morrendo de fome? E quanto aos filmes que faço download da internet? Isso é considerado como roubo, já que não preciso pagar pelo preço deles? Da mesma forma, é pecado copiar CDs de música apenas para o consumo próprio? E se eu copiar um DVD dos Adoradores para fins evangelísticos? Sobre o nono mandamento, “não dirás falso testemunho”, podemos perguntar: É permitido mentir para salvar uma vida? É permitido mentir para fazer uma surpresa a uma pessoa? É proibido mentir para conseguir um emprego?

Não precisamos analisar todos os mandamentos para chegar à conclusão de que eles poderão ser problematizados. Mesmo com aparência “universal”, eles carecem de especificidades que só poderão ser respondidas com a reflexão ética em cada período em que tais mandamentos forem aplicados. Essa “carência” de um significado específico para todas as ocasiões é notada principalmente no aspecto da ambiguidade, presente em cada um dos mandamentos. A tirinha abaixo retirada do blog Traços do Reino poderá ilustrar esse aspecto de forma mais didática: [imagem ilegível]

Na tirinha acima, o personagem Moisés reclama do fato de o quarto mandamento ser muito ambíguo; afinal, ele só exige para que o sábado seja “santificado”, sendo as seguintes exigências nada específicas para os dias de hoje. Moisés, então, sugere que o personagem Deus acrescente uma informação para que o mandamento possa ser aplicado a uma situação específica: não assistir aos jogos da Copa do Mundo. Assim, os cristãos poderiam “santificar” o sábado agindo de uma maneira específica, a saber, não assistir aos jogos de futebol. Contudo, o personagem Deus desconsidera essa possibilidade alegando que as pessoas dariam muita importância a esse aspecto e não santificariam o sábado de fato. Por isso, Moisés sugere novamente que o sábado seja santificado com a informação de que cada um deve obedecer a sua própria consciência e não infringir a dos outros. Porém, o problema seria o mesmo. Por fim, os personagens decidem que a ambiguidade seria a melhor escolha, já que qualquer especificidade poderia atrapalhar o foco do mandamento: a santificação do Sábado.

O mandamento “não cobiçar o boi, a terra e a mulher do próximo” se refere à propriedade de uma pessoa. Se aplicado no sentido em que foi gerado, ele hoje seria classificado como machista (CORTELLA; BARROS FILHO, 2014, p. 33).

Neste ponto, o discente já deve ter percebido que, embora o mandamento possua um princípio muito claro para o comportamento correto, ele precisa ser devidamente discutido para ser aplicado à sociedade atual. Cobiçar, roubar ou mentir são considerados como incorretos, mas precisam ser aplicados aos nossos tempos. Não basta tomar o Decálogo ao pé da letra a partir de leituras literais e superficiais, a fim de ser mais “fiel” ao mandamento. Atitudes como essa apenas conduzirão o cristão a conclusões equivocadas sobre a vontade de Deus e, com efeito, à prática errônea de Suas prescrições. O aspecto do Decálogo que o torna “eterno” não é o seu conteúdo em si, ou as palavras que contém, mas o princípio que ele comunica como lei de Deus. A lei de Deus, de fato, é muito anterior ao Decálogo e, obviamente, muito mais abrangente do que ele. Os dez mandamentos em si não são eternos, mas comunicam um princípio eterno de uma lei absoluta! Gerge Knight (2001, p. 27, tradução livre), um historiador adventista, enfatiza esse aspecto da lei ao afirmar que “os princípios dos dez  mandamentos existem antes da queda (ou seja, do pecado), e eram adaptados à condição de uma ordem de seres celestiais”.¹ A mesma perspectiva será defendida por Ellen G. White (1958, 1980, v. 1, p. 220 e 230, tradução livre, grifo nosso), quando comenta

A lei de Deus existia antes da criação do ser humano. Ela foi adaptada para a condição dos seres santos; mesmo os anjos eram governados por ela. Depois da queda, os princípios da justiça estavam inalterados […] (Depois da transgressão de Adão, os princípios da lei) foram definitivamente acomodados e expressos em conformidade com o ser humano e sua condição caída.²

¹ “The principles of the ten commandments existed before the fall, and were of a character suited to the condition of a holy order of beings.

² “The law of God existed before man was created. It was adapted to the condition of holy beings; even angels were governed by it. After the Fall, the principles of righteousness were unchanger […] were definitely arranged and expressed to meet man in his fallen condition.

Isso quer dizer que um “anjo”, antes da prescrição dos dez mandamentos, não precisava se preocupar com o mandamento “não adulterarás”! (Há dúvidas, inclusive, se um anjo possui ou não um gênero sexual.) Ou seja, é muito provável que esse mandamento, especificamente falando, não foi prescrito porque não refletia um comportamento moral necessário no contexto celestial. A partir da criação do ser humano, da divisão dos gêneros sexuais e da realização do matrimônio – e só a partir de então – existirá um mandamento que exija fidelidade do casal e proíba o adultério. Da mesma maneira, somente com o avanço da tecnologia, dos meios de comunicação e das redes sociais – e somente a partir de então – podemos aplicar a ética às discussões sobre questões de adultério online, como a pornografia. Em suma, o princípio da lei de Deus deve ser aplicado a diversificados contextos de formas distintas. É evidente que mesmo uma questão simples como o mandamento “não adulterarás”, embora seja baseado em uma lei universal, deverá ser aprofundado e contextualizado com o passar dos anos. Assim como entre os anjos não se discutiam questões sobre adultério, no Éden não se discutia sobre pornografia na internet. Ou seja, a lei de Deus deve ser reelaborada de tempos em tempos de forma que seja aplicada à época vigente. Nas palavras do filósofo judeu Walter I. Rehfeld (1993, p. 9, grifo nosso), “a elaboração da Lei jamais para. Com as mudanças das condições de vida a Lei deve ser interpretada de geração em geração, para fazê-la aplicar a circunstâncias específicas.”

Reflexões éticas sobre o sábado

Até aqui aprendemos algo fundamental sobre o Decálogo: ele só será eterno se o seu princípio for aplicável a diferentes épocas e contextos. Essa aplicação deverá ser realizada pela ética cristã, que discutirá a exigência moral de cada mandamento dentro de determinada época. Neste ponto, para colocar em prática o que discutimos até aqui, vamos eleger o quarto mandamento a fim de, em primeiro lugar, problematizá-lo e, em segundo lugar, refletir a respeito da sua prática para os nossos dias. Ele está em Êxodo 20:8-11, como se segue:

Lembra-te do dia do sábado para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor o dia do sábado, e o santificou.

O quarto mandamento é de extrema importância para Igreja Adventista do Sétimo Dia e para outras igrejas “sabatistas” (o que inclui o judaísmo). A primeira dificuldade que ele comunica encontra-se na ação proibida para esse dia, “trabalhar”. O que é trabalhar? Ou melhor, o que é um trabalho? Hoje poderíamos considerar como “profissão” ou “bico”, mas qual era o sentido de “trabalho” na época em que o mandamento foi pronunciado?

A comunidade judaica, com o passar dos anos, deparou-se com essa mesma dificuldade e, como de costume, procurou entendê-la. A princípio, as motivações pareciam boas, mas, com o passar dos anos, os esforços chegaram a extremos indesejados. O primeiro detalhe definido foi justamente o termo “trabalho” (מְלָאכָה). A Bíblia expõe apenas alguns tipos de trabalho que não deveriam ser realizados no sábado (Êx 34:21; Nm 15:32-36; Ne 13:15-18; Is 58:13; Jr 17:22; Am 8:5; Êx 16:29-30; Êx 35:2-3). Partindo do contexto de Êxodo 31:1-18 (na construção do tabernáculo), eles entenderam que o trabalho é:

“qualquer atividade que modifique a forma natural de um objeto”. Obviamente, existem muitas atividades com essa característica. Portanto, foram divididas 39 categorias de atividades denominadas como “trabalho” que foram proibidas no sábado pela comunidade judaica após o exílio babilônico.

É interessante notar que foram elaboradas 39 “categorias”, ou seja, não eram atividades específicas, mas uma determinada ação que correspondia a uma série de atividades. Por exemplo, durante o sábado, proibia-se atividades como arar a terra, peneirar e acender fogo. Ora, é muito provável que tais atividades, de fato, representassem ações típicas de trabalho, contudo, com o passar dos anos elas começaram a causar dificuldades. Visto que “arar”, por exemplo, corresponde à ação de abrir uma fenda na terra com algum objeto cumprido (a fim de jogar as sementes), o que aconteceria se um indivíduo arrastasse uma cadeira sobre a terra no sábado? Ele estaria arando, já que a ação de arar é bem representada dessa forma? Entre os elaboradores das 39 categorias, sim!, não era permitido arrastar uma cadeira na terra durante o sábado. Da mesma maneira, entre os judeus mais ortodoxos, é proibido até hoje utilizar-se de energia elétrica durante o sábado. Isso ocorre porque partem do princípio de que para gerar eletricidade é necessário gerar faíscas. Visto que gerar faíscas relacionar-se à ação de “acender fogo”, uma das categorias da lei oral, eles não se permitem ligar o carro, acender a luz, andar de elevador ou outras atividades do gênero.

Neste ponto, o estudante já deve ter percebido que embora tenham levantado a pergunta correta, eles a responderam de maneira errônea. A palavra “trabalhar” em Êxodo 20:8-11, de fato, corresponde o centro da proibição do mandamento. Contudo, para que ele fosse devidamente aplicado, bastaria definir um conceito mais amplo para “trabalho” naquela época, e não aplicá-lo de forma tão rígida às atividades específicas! Essa formalidade desnecessária às categorias de atividades que corresponderiam um “trabalho” os conduziu ao legalismo, que enfatizava mais aquilo que a tradição definia como certo e errado do que aquilo que o mandamento em si parecia dar importância. A guarda do sábado passou a ser uma data em que os judeus estavam mais preocupados com as atividades que “não deveriam fazer” (e eram infinitas) do que com a atividade que o quarto mandamento enfatiza como primordial: descansar no sábado e santificá-lo.

Pode parecer um absurdo para nós o fato de os judeus criarem “tradições” em torno da guarda do sábado, conferindo mais atenção a elas do que ao cerne do mandamento. Contudo, devemos observar que esse costume ainda perdura, embora em religiões diferentes. Queremos dizer que, certas atividades consideradas “incorretas” para o sábado, com o passar dos anos, transformaram-se de maneira definitiva, a ponto de significar justamente o contrário. Contudo, algumas dessas atividades continuam sendo interpretadas como incorretas por insistência no que ela significou no passado, e ao passo que as peculiaridades atuais a seu respeito são desconsideradas. Para entendermos melhor esse problema dentro do nosso contexto, devemos abordar o conceito de “trabalho” a partir de uma atividade comum a todas as épocas que, com o passar dos anos, apresentou características distintas. Para tornar a nossa explicação mais específica, resolvemos adotar o ato de “cozinhar”, contudo, dentro do contexto da guarda do sábado.

Há 60 ou 70 anos, por exemplo, as mulheres tinham o costume de preferir o trabalho doméstico enquanto os seus maridos saíam para trabalhar. Elas limpavam a casa, cuidavam dos filhos, preparavam o alimento e cuidavam dos animais. Quando o seu marido chagava, portanto, a casa já estava limpa, a comida pronta e as crianças tranquilas. Visto que o serviço doméstico era trabalhoso durante a semana, os adventistas entendiam que ele deveria ser evitado no sábado! Essa atitude é completamente justificável, já que, aos sábados, os cristãos deveriam deixar de lado os seus trabalhos semanais. Portanto, cabia à mulher preparar a comida na sexta-feira para que, no sábado, as atividades domésticas não fossem realizadas. Podemos perceber que, para a sociedade daquela época, o sábado estava sendo muito bem guardado, visto que durante aquele dia a família, literalmente, descansava de seus afazeres, tanto a mulher quanto seu marido.

Contudo, a mudança da sociedade é algo inevitável. Com o passar dos anos percebemos que ela se configura de uma maneira completamente diferenciada! As famílias que costumam se formar hoje em dia não possuem uma distinção muito precisa entre a pessoa responsável pelo “trabalho doméstico” e a pessoa responsável pelo “trabalho profissional”. Ao passo que as mulheres conquistaram espaço no mercado e trabalho, muitas delas optaram por deixar os serviços domésticos a fim de se dedicarem à sua profissão. Logo, atividades como limpar, cozinhar, lavar etc. não estão mais associadas a um “trabalho” semanal na família, visto que, em muitas delas, ambos pai e mãe trabalham fora de casa, deixando as atividades caseiras, às vezes, para os filhos ou para as ajudantes domésticas. Assim, o ato de cozinhar, por exemplo, não corresponde mais a um “trabalho” semanal exercido por algum dos familiares; na verdade, quando uma família desse tipo se reúne para cozinhar e comer algo juntos, essa atividade pode ser classificada quase como um “momento de lazer”, já que o ato de preparar o alimento não é uma atividade corriqueira durante a semana. Em alguns aspectos, é até uma “folga” do estresse cotidiano. Portanto, o fato de muitas famílias adventistas hoje não conferir tanta importância ao ato de cozinhar no sábado ocorre justamente porque essa atividade não é mais entendida como um “trabalho”, mas como uma espécie de lazer, ou um hobby. Ainda assim, devemos admitir que, em alguns contextos atuais, o ato de cozinhar ainda permanece como um “trabalho”, principalmente quando exercido de maneira profissional.

No geral, devemos admitir que a sociedade que recebeu o Decálogo no deserto – composto por homens e mulheres recém-afastados da escravidão no Egito Antigo – é infinitamente diferente de sociedade hoje. Portanto, o mandamento do sábado deve ser respeitado de acordo com o estilo de vida aplicado a nossa sociedade. Não se trata de um desrespeito ao sábado aplicá-lo a essas demandas; ao contrário, é justamente a procura por uma maneira de respeitá-lo da melhor forma possível. Em uma sociedade capitalista, globalizada e imediatista, é provável que o sábado possua um significado muito semelhante ao apontado por Nilton Bonder (2001, p. 89):

Para um mundo no qual funcionar 24 horas por dia parece não ser suficiente; onde o meio ambiente e a terra imploram por uma folga, uma pausa; onde nós mesmos não suportamos mais a falta de tempo – o Shabat é uma necessidade do planeta […] Hoje o tempo de “pausa” é preenchido por diversão e alienação. Lazer não é feito de descanso, mas de ocupações para não nos ocuparmos. A própria palavra “entretenimento” indica o desejo de não parar. É a busca de algo que nos distraia para que não possamos estar totalmente presentes. Estamos cansados mesmo quando descansados. E a incapacidade de parar é uma forma de depressão. O mundo está deprimido e a indústria do entretenimento só pode crescer nessas condições.

Portanto, até aqui, percebemos que a insistência em “não cozinhar” no sábado, se é que ela existe, seria desnecessária; na verdade, ela representaria a insistência em um “pensamento tradicional”, ou seja, um comportamento que não necessariamente tem relações com a atualidade, mas que é seguido por costume, e apenas por isso. Se os cristãos adventistas optam por não cozinhar no sábado no século XXI, como pontuamos acima, deveriam ter motivos muito mais justificáveis do que o “costume”. A ética cristã trabalhará com a necessidade de guardar o sábado, de cozinhar e de responder às demandas da sociedade, e não estará preocupada em manter tradições que não se justificam. Como é evidente, o sábado é guardado, contudo, da melhor maneira possível em determinada época da história da comunidade adventista. Embora seja um exemplo diminuto, segue-se que cozinhar no sábado, para nossa sociedade, não é corresponde à desobediência ao quarto mandamento; como o ato de cozinhar atualmente está relacionado ao ato de lazer, de hobby, ele poderia estar associado a um ambiente de descanso e de harmonia familiar, tão desejado pelas famílias no dia de sábado.

O Decálogo e a autonomia humana

Se você prestou atenção, percebeu que no tópico acima fomos capazes de aplicar a ética cristã ao quarto mandamento, o da guarda do sábado. Nós questionamos a natureza do “trabalho” e identificamos, a partir da atividade de “cozinhar”, o que seria melhor para a guarda do sábado atualmente. No fim, concluímos que cozinhar não seria, hoje em dia, uma atividade má vista no sábado, devido aos significados que ela possui para a nossa sociedade.

Portanto, neste ponto, devemos enfatizar o fator que nos possibilitou realizar essa pesquisa e entender a melhor maneira de guardar o sábado quando se trata de aplicar os seus princípios ao nosso tempo. Como estudamos na Unidade 1, a ética só é possível no âmbito da liberdade. Por isso, se fomos capazes de questionar o mandamento e contextualizá-lo a fim de aplicar os seus princípios da melhor forma possível, isso ocorre porque Deus nos conferiu liberdade para guardar o mandamento. Isto é, liberdade para guardar o sábado da melhor forma possível.

Como estamos falando especificamente sobre o sábado, seria interessante finalizar a nossa discussão com o que esse mandamento pode nos oferecer de melhor. Lembre-se que ele constitui um “mandamento”, uma conduta moral exigida por Deus e, portanto, uma revelação de Sua vontade. Como bons cristãos, queremos fazer a vontade de Deus; mais do que isso, queremos fazer a vontade de Deus da melhor forma possível. Para agir dessa forma, ou seja, para escolher a melhor forma possível, precisamos de liberdade para perseguir essa opção! Precisamos de autonomia para regular o mandamento às nossas vidas de forma que a vontade de Deus seja vivida na sua plenitude. Talvez justamente por isso que Jesus Cristo tenha dito que “o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2:27). É como se Ele estivesse presenteando a humanidade com esse dia para que fosse o melhor dia da semana. Ou seja, um dia “santo” (separado) que deveria tornar-se o melhor! O ser humano, por ser o dono do presente, é o responsável por isso. Está em suas mãos a responsabilidade de transformar o sábado em um dia de descanso, deleite e libertação.

Assim, como vimos, o ser humano precisa de liberdade para atuar; precisa de autonomia para viver o sábado da melhor forma possível. A própria palavra “autonomia” corresponde à junção de dois termos gregos: αυτóς e νóμος. O primeiro se refere a algo que é “próprio”, de “si mesmo”; e o seguindo significa “lei” ou “norma” (ver GINGRICH; DANKER, 2012, p. 38 e 141). No contexto de nossa discussão, possuir autonomia significa possuir liberdade para viver o mandamento à sua maneira, ou seja, da melhor forma possível. Para tanto, o cristão não deveria se esquecer dos princípios fundamentais que regem essa lei, isto é, o comportamento correto que ela exige: a santificação e o descanso do trabalho semanal. Embora ambíguos, essa falta de especificidade corrobora com a própria autonomia humana. Só assim o ser humano terá a capacidade de abraçar o mandamento para vivê-lo da melhor forma possível, justamente porque é livre para apreciá-lo e, como diria Ellen G. White na citação acima, “acomodá-lo” à nossa realidade, o que implica “tornar cômodo”, ou seja, preparar para ele um local confortável.

Finalizando essa questão, podemos citar um texto judaico antigo a respeito da relação entre o mandamento e a liberdade:

Não digas: “É o Senhor que me faz pecar”, porque ele não faz aquilo que odeia. Não digas: “É ele que me faz errar”, porque ele não tem necessidade de homem pecador. O Senhor odeia toda espécie de abominação e nenhuma é amável para os que o temem. Desde o princípio ele criou o homem e o abandonou nas mãos de sua própria decisão. Se quiseres, observarás os mandamentos para permanecer fiel ao seu prazer. Ele colocou diante de ti o fogo e a água; para o que quiseres estenderás tua mão (Sabedoria de Ben Sirac, 15:11-16).

O mandamento está, assim, à nossa disposição. Por isso, devemos tratá-lo com respeito, pois ele corresponde à vontade do próprio Deus. Fomos criados com livre-arbítrio para viver a vontade de Deus da melhor forma possível. Isso significa que o mandamento não deve estar em nossas vidas como um fardo, uma espécie de obrigação sem sentido. Ele deve comunicar vida aos que o seguem. O apóstolo João nos ensinou que os mandamentos de Deus “não são pesados” (1Jo 5:3). Portanto, se o ato de guardá-los nos traz situações de desconforto ou nos conduz a comportamentos legalistas, estaremos guardando qualquer outra coisa, menos os mandamentos de Deus. Sem sombra de dúvidas, ele representa a “lei da liberdade” (Tg 2:12).

Considerações finais

Por fim, nesta unidade, fomos capazes de aplicar os conceitos estudados nas unidades anteriores de maneira prática. No início, fomos introduzidos ao Decálogo e fizemos questão de questioná-lo de diversas formas. Esse questionamento nos conduziu à certeza de que ele, embora escrito por Deus em tábuas de pedra, ainda precisava da ética cristã para que pudesse ser aplicado a o nossa realidade da melhor maneira possível. Portanto, a fim de realizar essa empreitada, escolhemos um mandamento específico para aplicar a ética cristã: o quarto mandamento sobre a guarda do sábado.

Ao ler o quarto mandamento em seu contexto, percebemos que havia a necessidade de definir o termo “trabalho”, que corresponde à atividade proibida no dia do sábado. Depois de entender como os judeus, após o exílio babilônico, costumavam abordar o quarto mandamento, entendemos que o termo “trabalho” não poderia ser definido de maneira determinante, pois não seria capaz de lidar com a diversidade da experiência humana. Quando trouxemos o conceito de “trabalho” para o contexto atual, consideramos uma atividade humana específica, o ato de cozinhar, como alvo de nossa reflexão ética, a fim de entender minimamente a sua função dentro do descanso sabático. Por fim, fomos capazes de entender, mesmo que de forma simplificada, que os significados atribuídos ao ato de cozinhar mudaram significativamente com o passar dos anos, de maneira que não estivesse mais associado a um “trabalho” em si, mas a um lazer. Assim, chegamos à conclusão de que, atualmente, cozinhar é uma boa atividade para ser realizada no sábado – salvo as infinitas exceções que poderiam existir nesse contexto, mas que exigiriam um esforço de reflexão ética à parte.

Mesmo no instante de nosso curso em que deveríamos concluir a matéria que estamos estudando, devemos admitir que, quando se trata de ética, a história será muito diferente. Como você já sabe, a ética é uma busca, uma reflexão que demanda a atividade intensa do questionamento. O mesmo deve ser reconhecido no que se trata do exemplo desta unidade. A questão poderia ser aprofundada ainda mais, mesmo quando chegamos a um breve consenso sobre o ato de cozinhar no sábado. Por exemplo: Qual é o papel do “lazer” na guarda do sábado? Se no sábado o objetivo do cristão é o “lazer” ou mesmo o contrário, seria ele teleológico em si? Enfim, muitas outras perguntas poderiam ser levantadas e, certamente, ainda superficialmente respondidas. A possibilidade de questionarmos um comportamento é evidência de que em todas as ocasiões temos a oportunidade fazer o que é melhor para Deus, para o próximo e para nós mesmos. A partir do momento em que um mandamento torna-se rígido, ele limitará a vontade de Deus, será utilizado como instrumento de juízo contra o próximo e será útil apenas para a glorificação ou flagelação pessoal. Devemos ser humildes para reconhecer que o comportamento mais correto será, na maioria esmagadora da ocasiões, apenas aquilo que consideramos como o melhor comportamento, a partir do conhecimento da vontade de Deus e de nossa condição atual.

Referências bibliográficas

BARROS FILHO, Clóvis de; CORTELLA, Mario Sergio. Ética e vergonha na cara. Capinas: Papirus 7 mares, 2014.

BONDER, Nilton. Judaísmo relevante no século XXI. In: BONDER, Nilton; SORJ, Bernardo (Orgs.). Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

DAVIDSON, Robert. Ideologia da aliança no Israel antigo. In: CLEMENTS, R. E. O mundo no antigo Israel. São Paulo: Paulus, 1995.

GINGRICH, F. Wilbur; DANKER, Frederickk W. Léxico do Novo Testamento: grego/português. São Paulo: Vida Nova, 2012.

KNIGHT, George R. I used to be perfect: a study of sin and salvation. Michigan: Andrews University Press, 2001.

REHFELD, Walter I. Nas sendas do judaísmo. São Paulo: Perspectiva, 2003.

WHITE, Ellen G. Selected Messages. Washington: Review and Herald, 1958, 1980. v. 1.

(Felipe Carmo, Curso de Pós-graduação em Métodos e Técnicas de Ensino, Centro Universitário Adventista de São Paulo- UNASP, Campus Virtual, Disciplina: Filosofia e Ética Crisã, Unidade 4)

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Um comentário em “Ética cristã e os dez mandamentos

  1. este 10 mandamento esta incompleto exedo esta certo

    Então falou Deus todas estas palavras, dizendo:
    Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.
    Não terás outros deuses diante de mim.
    Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.
    Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam.
    E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.
    Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.
    Lembra-te do dia do sábado, para o santificar.
    Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra.
    Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas.
    Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor o dia do sábado, e o santificou.
    Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá.
    Não matarás.
    Não adulterarás.
    Não furtarás.
    Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
    Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.

    Êxodo 20:1-17

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