A predestinação e a Assembleia de Deus

assembleia-de-deusNa Lição 6 da atual revista de adultos da Escola Dominical (CPAD), está sendo abordado um pertinente tema: A abrangência universal da salvação, com comentários do Pr. Claiton Pommerening. Em virtude de estarmos experimentando uma descoberta e um crescimento do interesse pela Teologia Arminiana Clássica em nossas igrejas pentecostais brasileiras, gostaria de trazer um esclarecimento sobre o tema PREDESTINAÇÃO, visto que o assunto foi citado de passagem no quadro “Interagindo com o Professor” (página 41 da Lição do Professor, CPAD) de modo não muito claro, deixando algumas brechas para mal-entendidos. Neste quadro da Lição está dito assim: “Não podemos concordar com a predestinação…”, e aí não se faz qualquer distinção teológica entre a predestinação defendida pelo Calvinismo e a predestinação defendida pelo Arminianismo clássico, que é a linha soteriológica seguida pelas Assembleias de Deus no Brasil.

Faltou a Lição definir que predestinação é essa com a qual não podemos concordar (embora leitores mais inteirados do assunto logo percebam a que predestinação se está referindo), e ao mesmo tempo apresentar aquela predestinação com a qual devemos concordar por ser bíblica. Pois, sim, a Bíblia fala de predestinação! Apenas não podemos concordar com a predestinação INCONDICIONAL (defendida pelo Calvinismo), mas podemos e devemos concordar com a predestinação CONDICIONAL (defendida pelo Arminianismo). Explico a seguir.


 
 

1 – PREDESTINAÇÃO INCONDICIONAL

Agostinho, bispo de Hipona (na África), foi quem introduziu de modo inédito na Igreja, entre os séculos IV e V, a teoria da predestinação incondicional, segundo a qual alguns homens já estão predestinados à vida eterna, antes mesmo de qualquer previsão de fé ou perseverança. Segundo aquele bispo, alguns pecadores receberão fé e perseverarão nela porque estão predestinados para isso. Deus predeterminou que eles tenham fé e perseverança. Daí vêm outros conceitos como o de graça irresistível – também introduzido de modo inédito por Agostinho – e perseverança dos santos (embora aqui, Agostinho mesmo defendia a possibilidade de alguns salvos virem a declinar da fé, não estando eles contados entre aqueles que Deus predestinou incondicional e irresistivelmente para o gozo eterno. Ou seja, para Agostinho, nem a todos os salvos Deus concede a graça da Perseverança, mas apenas aos eleitos).

O bispo de Hipona, que é um dos mais eminentes teólogos cristãos do Ocidente, foi um dos antigos Pais latinos da Igreja, de vasta cultura e conhecimento, mas que, todavia, não dominava o grego, língua do Novo Testamento (1). Ele, que em sua juventude seguiu os passos dos Pais que lhe antecederam, foi longe demais em sua obsessiva luta contra o monge bretão, Pelágio, que negava o pecado original e afirmava erradamente, dentre outras coisas, “que o homem poderia sim, cumprir a Lei de Deus por sua própria força e capacidade; mas ainda com maior facilidade por meio da graça de Cristo” (2). Agostinho, tentando superar Pelágio e demovê-lo de seu erro ao atribuir ao homem força inerente para cumprir a Lei de Deus, acabou caindo em outro extremo tão errado quanto o de Pelágio, senão pior! Campenhausen, um dos mais importantes historiadores do século passado, comenta: “Essa preocupação [de Agostinho] levou-o à afirmação da completa predestinação divina, em outras palavras, da previsibilidade de Deus que como tal deve ser ao mesmo tempo uma pré-determinação e uma pré-decisão” (3). Nessa sua luta contra Pelágio e em sua defesa da inédita teoria da predestinação incondicional e individual, Agostinho não tinha razão, mas tinha persuasão. Logo, tinha razão. Impunha sua própria razão pela força do discurso! Campenhausen é certeiro como uma flecha: “Embora essa atitude o tenha tornado teologicamente invencível, fez também com que, ao mesmo tempo, fosse levado para muito longe dos dados imediatos da Bíblia, e até mesmo dos ensinos de Paulo, o que prendeu-o a posições difíceis de defender. Na verdade, seus oponentes o haviam levado para mais longe ainda: todavia, em seu próprio modo de pensar, achava que não havia se colocado à frente deles ainda o suficiente, e isso pode explicar muitas das fraquezas e do rigor da sua posição a que finalmente chegou. Agostinho não desejava ser um inovador, porém, não havia até então encontrado um precursor nas reivindicações pelas quais lutava” (4).

O teólogo anglicanob John Kelly, ao tratar sobre aqueles que recebem a graça da salvação na perspectiva de Agostinho, comenta: “Agostinho crê que Deus fez isso desde a eternidade. O número dos eleitos”, segundo o bispo de Hipona, “está rigorosamente limitado, não sendo maior nem menor do que é necessário para substituir os anjos caídos. Desse modo, ele precisa distorcer [!] o texto que diz que ‘Deus deseja que todos os homens sejam salvos’ (1Tm 2.4), interpretando que Ele deseja a salvação de todos os eleitos, entre os quais estão representados homens de todas as raças e tipos” (5). É de Agostinho que vem a interpretação calvinista comum – embora não unânime (6) – de que Deus não quer exatamente que todos os homens sejam salvos, mas sim que todos os tipos de homens sejam salvos. Nas palavras do teólogo J. Kelly, isto é “distorcer o texto”. Mesmo o pregador calvinista Charles Spurgeon, estava de acordo de que esta interpretação calvinista de “tipos de homens” é uma “explosão gramatical”, como ele disse em seu sermão Salvation by knowing th truth(1880).


 
 

O teólogo alemão Gustav Wiggers, considerando o ineditismo da teoria da predestinação incondicional de Agostinho, chega a fazer a seguinte declaração: “Quanto à doutrina da Igreja, até onde ela foi defendida até agora pelos símbolos, Agostinho poderia muito mais que Pelágio, ser chamado de herege. A doutrina agostiniana em toda a sua extensão, pelo menos na sua teoria da predestinação [incondicional], nunca foi expressamente pronunciada ortodoxa, em qualquer sínodo, inclusive no efésio [Primeiro Concílio Efésio, ano 431]” (7).

De modo geral, o entendimento de Agostinho sobre predestinação é aceito pelos calvinistas, desde o próprio Calvino, que, dentre muitas citações que poderíamos fazer aqui, declarou as seguintes palavras: “Chamamos PREDESTINAÇÃO o eterno decreto de Deus pelo qual houve por bem DETERMINAR O QUE ACERCA DE CADA HOMEM QUIS QUE ACONTECESSE. Pois ele não quis criar a todos em igual condição; ao contrário, preordenou a uns a vida eterna; a outros, a condenação eterna. Portanto, como cada um FOI CRIADO PARA um ou outro desses dois destinos, assim dizemos que um foi predestinado ou para a vida, ou PARA A MORTE” (8). Aí está declarada a dupla predestinação de Calvino: os que foram predestinados para vida eterna e os que foram predestinados para morte eterna. E a prova de que Calvino crê que esta predestinação é incondicional – ou seja, independe de qualquer coisa que o homem pense, diga ou faça – está em sua declaração: “os réprobos SÃO SUSCITADOS PARA ESTE FIM, ou, seja, para que através deles a glória de Deus resplandeça. (…) Portanto, se não podemos assinalar outra razão por que Deus usa de misericórdia para com os seus, a não ser porque assim lhe apraz, tampouco disporemos de outra razão por que rejeita e exclui aos demais, senão pelo uso deste mesmo beneplácito” (9).


 
 

O teólogo calvinista R.C. Sproul, um dos maiores representantes do calvinismo em nosso tempo, assim resume a posição reformada calvinista sobre predestinação: “a visão reformada assevera que a decisão final para salvação está com Deus e não com o homem. Ensina que desde a eternidade Deus escolheu intervir nas vidas de algumas pessoas e trazê-las à fé salvadora, e escolheu não fazer isso para as outras pessoas. Desde toda a eternidade, sem nenhuma visão prévia de nosso comportamento humano, Deus escolheu alguns para a eleição e outros para a reprovação (…) Na visão reformada da predestinação, a escolha de Deus precede a escolha do homem”. (10)

Portanto, que fique claro: é com esta predestinação calvinista, que tem seu precedente teológico em Agostinho de Hipona, que não foi conhecido, defendido ou estabelecido em qualquer Sínodo ou Concílio da Igreja em seus primeiros séculos… é contra esta teoria de predestinação individual e incondicional que nós erguemos nossa voz de protesto e rejeitamos peremptoriamente! Cremos que a salvação é uma dádiva da graça, mas que deve ser recebida pela fé, sem a qual “é impossível agradar a Deus” (Hb 11.6), e que somente perseverando nessa fé é que o salvo terá garantida para si a vida eterna, pois, como disse Jesus, “É perseverando que vocês obterão a vida” (Lc 21.19), e que sem santificação “ninguém verá a Deus” (Hb 12.14), sendo possível ao que foi santificado com o sangue da nova aliança, vir a pisar neste sangue e profaná-lo (Hb 10.29), e o justo pode vir a recuar da fé e não encontrar mais o prazer de Deus (Hb 10.38), e que Deus quer que todos sejam salvos (1Tm 2.4) e que nenhum se perca (2Pe 3.9) e que Ele não tem prazer na morte do ímpio, antes deseja que o ímpio se arrependa (Ez 18.23; 33.11), e que há sim uma condição a ser cumprida pelo homem para que ele possa ser contado entre os escolhidos de Deus para salvação (Jo 3.16; At 16.31). Por esta razão, não podemos concordar com a predestinação de Agostinho ou de Calvino.

2 – PREDESTINAÇÃO CONDICIONAL

Jacó Armínio, teólogo holandês do século XVI, em sua famosa Declaração de Sentimentos, depois de apresentar uma longa refutação à predestinação defendida pelos calvinistas, apresenta seus próprios apontamentos sobre a doutrina da predestinação, e o faz em acordo com os antigos Pais da Igreja, anteriores a Agostinho, tanto Pais latinos quanto Pais gregos. É conforme estes postulados de Jacó Armínio que nós cremos, porque acreditamos estarem não só em conformidade com o ensino geral dos antigos Pais, mas em subordinação a própria Bíblia sagrada, que é nossa regra de fé e prática.


 
 

Armínio, depois de dizer que Jesus Cristo estabelecido como Salvador, Mediador e Rei é o primeiro decreto de Deus concernente à nossa salvação, diz que “o segundo decreto preciso e absoluto de Deus é aquele em que Ele decretou receber aqueles que se arrependerem em Cristo, e, em Cristo, por causa dEle e por meio dEle, para efetivar a salvação de tais penitentes e crentes que perseverarem até o fim, mas deixar em pecado, e sob a ira, todas as pessoas impenitentes e incrédulas, condenando-as como alheios a Cristo” (11). Mais à frente, Armínio expõe que este decreto de salvação condicionado ao arrependimento, tem como embasamento a presciência de Deus, ou seja, Deus já previu na eternidade quem e quantos exatamente – sua onisciência é perfeita! – aceitariam a salvação pela fé e nela perseverariam até o fim, tanto quanto os que persistiriam na incredulidade: “Deus decretou salvar e condenar certas pessoas em particular. Este decreto tem o seu embasamento na presciência de Deus, pela qual Ele sabe, desde toda a eternidade, que tais indivíduos, por meio de sua graça preventiva, creriam, e por sua graça subsequente perseveraria (…) e, do mesmo modo, pela sua presciência, Ele conhecia aqueles que não creriam, nem perseverariam”(12).

Perceba que o ensino de Armínio difere do de Agostinho (que foi adotado por Calvino no século XVI): para Agostinho, a predestinação é incondicional – Deus predestina alguns apenas para serem salvos e a estes dá irresistivelmente a graça da salvação e, a eles somente, dá a dádiva da perseverança; para Armínio, a predestinação é condicional – Deus predestina o que crê para salvação e aos que perseverarem em fé nesta salvação recebida Ele dará necessariamente a vida eterna, como prometeu e decretou. Na verdade, Armínio apenas está resgatando o antigo ensino dos Pais da igreja, conforme os teólogos metodistas do século 19, James Strong e John McClintock, bem descreveram:

“A doutrina unânime e inquestionável da Igreja sobre este ponto [Predestinação] por mais de quatrocentos anos foi, até onde se desenvolveu em distinção, exatamente idêntica àquela que deve sua forma científica e nome a Armínio. (…) ‘Em relação à predestinação’, escreveu Wiggers [1840], ‘os Pais antes de Agostinho diferem inteiramente dele… Eles fundaram a predestinação sobre a presciência’ [de Deus] (…) Justino Martir, Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, Crisóstomo – em declarações claras e decisivas – deram sua adesão à teoria da predestinação condicional, rejeitando o oposto como falsa, perigosa e totalmente subversiva da glória de Deus (…) durante mais de quatrocentos anos não se ouviu uma única voz, seja na Igreja Oriental ou Ocidental, na advocacia da predestinação divina incondicional” (13).

Como prova desta crença comum na predestinação condicional baseada na presciência de Deus entre os Pais da Igreja, vejamos como exemplo o que disse Irineu de Lião, ainda no segundo século:


 
 

“E Deus que conhece todas as coisas antecipadamente preparou para uns e outros morada conveniente: aos que procuram a luz da incorruptibilidade e tendem a ela, dá com bondade a luz que desejamaos que a desprezam e se afastam fugindo dela, que de certa maneira cegam-se a si mesmos, preparou obscuridade, como convém, e aos que se subtraem à submissão a Deus, castigo apropriado. A submissão à Deus é o descanso eterno e os que fogem da luz terão lugar digno da sua fuga e os que fogem do descanso eterno terão morada apropriada à sua fuga. Todos os bens se encontram em Deus e os que fogem de Deus por sua própria vontade privam-se de todos os bens e, privados de todos os bens que se encontram em Deus, justamente cairão sob o justo juízo de Deus” (14)

Apesar de Irineu, um dos Pais gregos, não usar neste trecho a expressão “predestinação condicional”, é justamente o conceito dela que subjaz em sua fala: Deus concedendo um futuro a um e a outro conforme a resposta do pecador à revelação divina.

Aos assembleianos é preciso ainda dizer que a própria Declaração de Fé das Assembleias de Deus rejeita a predestinação incondicional e reitera a crença na predestinação condicional, nos seguintes termos:

“O Soberano Deus não predestinou incondicionalmente pessoa alguma à condenação eterna, mas, sim, almeja que todos, arrependendo-se, convertam-se de seus maus caminhos (…). A predestinação genuinamente bíblica diz respeito apenas à salvação, sendo condicionada à fé em Cristo Jesus, estando relacionada à presciência de Deus. Portanto a predestinação dos salvos é precedida pelo conhecimento prévio de Deus daqueles que, diante do chamado do Evangelho, recebem Cristo como o seu Salvador pessoal e perseveram até o fim” (15).

Talvez a única distinção entre o posicionamento agora oficial assembleiano e o posicionamento do teólogo Jacó Armínio, com quais postulados a Assembleia de Deus está de acordo, é que enquanto o teólogo holandês não via dificuldade em admitir a predestinação para a condenação, mas condicionada à rejeição deliberada e persistente, a Declaração de Fé das Assembleias de Deus parece evitar argumentar assim, preferindo defender apenas a predestinação para a vida eterna. Todavia, se atentarmos para as palavras de Jesus em João 3, não teremos dificuldade alguma em admitir que há predestinação para condenação, tanto quanto para salvação, mas sempre condicionalmente (que isso fique claro!): “(…) para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna (…) Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no nome do Filho Unigênito de Deus” (v. 18) – veja que os destinos tanto do que vier a crer, quanto do que não vier a crer já estão previamente estabelecidos: vida eterna para aquele, condenação para este. É o que Paulo diz em Romanos: “E se Deus, querendo mostrar a sua ira e tornar conhecido o seu poder, suportou com grande paciência os vasos de sua ira, preparados para destruição” (Rm 9.22).

O vaso da ira, suportado por Deus e preparado para destruição é aquele que “despreza as riquezas da sua bondade, tolerância e paciência, não reconhecendo que a bondade de Deus o leva ao arrependimento” (Rm 2.4), e que “por causa da sua teimosia e do seu coração obstinado, está acumulando ira contra si mesmo, para o dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento” (Rm 2.5). Há uma condição para predestinação da salvação: CRER, consentindo em seu coração com a mensagem do Evangelho e o chamado da graça; como há uma condição para predestinação da condenação: NÃO CRER, resistindo aos apelos benevolentes e desprezando as oportunidades do Deus paciente. Armínio é contundente, e concordo com sua afirmação:“os homens iníquos que perseverarem em seus pecados necessariamente perecerão. Pois Deus, por meio de uma força irresistível, os lançará nas profundezas do inferno” (16).

Os que possuem uma Bíblia de Estudo Pentecostal poderão consultar as páginas 1808 e 1809 onde há um subsídio sobre ELEIÇÃO E PREDESTINAÇÃO. Entre outras coisas, está dito lá que: “A predestinação abrange o que acontecerá ao povo de Deus (todos os crentes genuínos em Cristo)”; e ainda: “A predestinação, assim como a eleição, refere-se ao corpo coletivo de Cristo (i.e., a verdadeira igreja), e abrange indivíduos somente quando inclusos neste corpo mediante a fé viva em Jesus Cristo”. Aqui fica demonstrado o caráter coletivo da predestinação dos salvos: a Igreja predestinada. Entretanto, esta predestinação coletiva não exclui a predestinação individual, “quando inclusos neste corpo mediante a fé viva em Jesus”.

O teólogo Roger Olson, coloca como mito a afirmação de que “o Arminianismo não acredita na predestinação”. No capítulo 8 de seu livro Teologia Arminiana – mitos e realidades, Olson esclarece: “A Predestinação é um conceito bíblico; o Arminianismo clássico a interpreta de maneira diferente dos calvinistas, mas sem negá-la. É o decreto soberano de Deus em eleger os crentes em Jesus Cristo e inclui a presciência de Deus da fé destes crentes” (17).

Dois textos bíblicos são singulares na defesa da predestinação condicional e embasada na presciência divina. Nas palavras de Paulo: “Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8.29). Perceba: “aqueles que de antemão [Deus] conheceu, também os predestinou…”. Esse conhecimento prévio engloba o conhecimento da fé e da perseverança. Nas palavras de Pedro: “escolhidos de acordo com a pré-conhecimento de Deus Pai, pela obra santificadora do Espírito, para a obediência a Jesus Cristo e a aspersão do seu sangue” (1Pe 1.2). Perceba: “escolhidos de acordo com o pré-conhecimento de Deus Pai…”, pré-conhecimento este que leva em conta a fé aceita e exercitada livremente pelo pecador, mediante ação da graça do Espírito de Deus. Se a fé prevista não é levada em conta para predestinação, então não é verdade que “Deus amou o mundo”, pois nesse caso, Deus teria amado apenas os predestinados. E também a verdade não seria que “todo aquele que nele crê tenha vida eterna”, mas que “apenas aquele que foi predestinado para vida eterna, creia nele”.

Portanto, que fique claro: nós cremos sim em predestinação. Mas a que é condicional à fé e que é estabelecida segundo a presciência de Deus das escolhas que fazemos em face da graça que Ele nos dirige. Não é o homem que tem a última palavra em sua eternidade – como nos acusam os calvinistas. É Deus quem já deu a primeira, e dará a mesma palavra como última aos homens: “vida eterna ao que creu! E morte eterna ao infiel!”. O homem só seria realmente dono de seu destino, se ele pudesse alterar os desígnios soberanos de Deus, e alcançar a vida eterna a despeito de sua permanência na incredulidade, ou se ele pudesse ser condenado ao inferno a despeito de sua permanência na fé. Como é impossível que Deus minta, e ele já estabeleceu o fim previamente para os que creem e para os que não creem, então, assim será: “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado” (Jo 3.18). Agora, quem vai crer ou deixar de crer, cabe ao homem decidir (não sozinho, pois para isso terá o auxílio indispensável da graça de Deus), como coube ao jovem rico decidir seguir a Cristo ou continuar preso às riquezas (Mc 10.21.22), e como coube a Israel se deixar ser acolhido por Cristo ou fugir de suas “asas de salvação” (Mt 23.37). As mãos de Deus não estão encolhidas para salvação de ninguém! (Is 59.1). Todavia, a salvação é uma dádiva da graça que deve ser recebida livremente (e só é realmente livre, porque há a possibilidade de ser recusada), não uma ação da força onipotente de Deus, contra a qual o homem não possa resistir.

Assim creem os pentecostais clássicos, assim creram os wesleyanos, assim creram os Remonstrantes, assim creram muitos pós-reformadores, reformadores e pré-reformadores, assim creram os Pais da Igreja, assim ensinaram os apóstolos de Cristo e profetas do Senhor.

Assim creio eu!

Tiago Rosas

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(1) Hans von Campenhausen. Os Pais da Igreja, 3. ed., CPAD, p. 369
(2) Jacó Armínio. As Obras de Armínio, vol. 1, CPAD, p. 235.
(3) Hans von Campenhausen. Op. cit., p. 384
(4) Hans von Campenhausen. Op. cit.
(5) J. N. D. Kelly. Doutrinas centrais da fé cristã, Vida Nova, p. 279. Grifo meu
(6) Eu disse “não unânime” porque há muito calvinistas que defendem que Deus de fato e verdade quer a salvação de todos os homens, não apenas de todos os “tipos de homens”. São os chamados “calvinistas de quatro pontos”, que creem que a redenção de Cristo foi feita por todos os homens, que a expiação é irrestritamente oferecida a todos os homens, mas especialmente aplicada aos eleitos, os que foram predestinados para recebê-la. Nomes como R. T. Kendall, F.F. Bruce, Millard Erickson, Lewis S. Chafer, Augustus H. Strong, dentre outros calvinistas, defendem a expiação ilimitada. Há inclusive uma antiga e longa discussão se o próprio João Calvino não teria também defendido a expiação ilimitada (ele diz: “É a vontade de Deus que busquemos a salvação de todos os homens, sem exceção, porque Cristo sofreu pelos pecados do mundo inteiro” – Gálatas, FIEL, p. 145). De minha parte, julgo por demais confuso que tais calvinistas creiam no modus operandi da graça como sendo irresistível (um dos pilares da TULIP calvinista, os cinco pontos essenciais de sua soteriologia) e ainda assim defendam uma expiação ilimitada, ou uma oferta generosa e sincera de salvação a todos os pecadores sem exceção. Pois bastaria questionarmos: se Deus realmente quer com sinceridade salvar a todos os pecadores, e se Cristo de fato morreu por todos eles, sendo a sua graça irresistível, como isso não desembocaria necessariamente na salvação de todos os pecadores? A combinação entre graça irresistível e expiação ilimitada é justamente o que defendem os universalistas, para os quais, todos os homens serão salvos irresistivelmente no final!
(7) Gustav Wiggers, An historical presentation of Augustine and Pelagianism, cap. 23.
(8) João Calvino. Institutas da Religião Cristã, vol. 3, cap. 21, seção 5. Os destaques são meus.
(9) João Calvino. Op. cit., seção 11
(10) R.C. Sproul. Eleitos de Deus, 2. ed., Cultura Cristã, p. 101
(11) Jacó Armínio. Op. cit., pp. 226,7
(12) Jacó Armínio. Op. cit., p. 227
(13) James Strong & John McClintock. The Cyclopedia of Biblical, Theological, and Ecclesiastical Literature, Haper and Brothers, NY: 1880. Verbete PREDESTINATION
(14) Irineu de Lião. Contra as heresias, Paulus, p. 510
(15) Declaração de Fé das Assembleias de Deus, CPAD, p. 110
(16) Jacó Armínio. Op. cit., p. 266
(17) Roger Olson. Teologia Arminiana – mitos e realidades, Reflexão, p. 233

(Gospel Prime)leia-de-deus

Efésios 1:1-11 apoia a predestinação calvinista?

Por Jack Cottrell

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PERGUNTA: Os calvinistas dizem que Efésios 1.1-11 estabelece claramente a soberania absoluta e toda-inclusiva de Deus, incluindo a predestinação incondicional dos eleitos para a salvação. Como você interpreta este texto?

RESPOSTA: Uma correta compreensão de Efésios 1.1-11 começa com o reconhecimento de que o propósito de Deus para Israel estava desde o princípio limitado à preparação para a vinda do Messias, a saber, para a encarnação de Deus, o Logos, como a pessoa humana Jesus de Nazaré. Uma vez que o Messias veio, era o propósito eterno de Deus unir todos os crentes israelitas e todos os crentes gentios em um novo corpo chamado a igreja. Este é o ponto principal do livro de Efésios, e é a chave para o entendimento da frequentemente mal empregada passagem de Efésios 1.1-11.

É bastante óbvio que Efésios 1 coloca considerável ênfase na vontade de propósito de Deus ou sobre o que Deus deseja e decide fazer. O versículo 5 diz, “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito [eudokia] de sua vontade [thelema].” O versículo 9 diz, “Descobrindo-nos o mistério da sua vontade [thelema], segundo o seu beneplácito [eudokia], que propusera [protithemi] em si mesmo.” Então, no versículo 11, lemos que “fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade.” Neste último versículo encontramos três palavras – prothesis, boule e thelema – praticamente empilhadas uma sobre as outras num esforço para ressaltar o conceito de propósito eterno.

Este último versículo também diz que Deus faz “todas as coisas” segundo o conselho da sua vontade. É por isso que os deterministas, tais como os calvinistas, falam de um decreto eterno que é todo-inclusivo e universal: Paulo não diz todas as coisas? Porém, aqueles que tomam isso num sentido absoluto ignoram o contexto imediato e o tema principal de Efésios como um todo. O termo “todas as coisas” (panta) não é necessariamente absoluto e deve ser entendido dentro das limitações impostas pelo contexto. Isso é visto claramente em 1Coríntios 12.6, que diz que Deus é aquele que “opera tudo [panta] em todos.” A linguagem é exatamente paralela a de Efésios 1.11; até o verbo é o mesmo [energeo]. No entanto, o contexto de 1Coríntios 12 claramente limita “todas as coisas” aos dons espirituais do Espírito Santo, e o versículo 11 diz bem especificamente: “Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.” De maneira similar, o contexto de Efésios 1.11 não nos permite pensar em “todas as coisas” num sentido absolutamente inclusivo, mas nos mostra o foco específico do propósito de Deus que está em vista aqui.

Qual é o foco? A chave para uma compreensão adequada deste encontra-se na referência de Paulo ao “mistério da sua vontade” no versículo 9. Qual é o mistério do qual Paulo fala aqui? Ele se refere a esse mistério novamente no capítulo 3, onde ele se maravilha de que a ele em particular foi dado o privilégio de conhecer este mistério. Ele diz que “como me foi este mistério manifestado pela revelação, como antes um pouco vos escrevi; por isso, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo” (3.3-4). “A mim,” ele exulta, “o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo, e demonstrar a todos qual seja a comunhão do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus” (3.8-9). Devemos ter o cuidado de não tornar o mistério genérico demais, como se fosse simplesmente o fato de Cristo ou o fato da salvação. Não, é muito mais específico do que isso. Paulo o afirma mais especificamente em 3.6, a saber, “que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho.” Este é o grande mistério “o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas” (3.5). E o apóstolo Paulo, nomeado para ser o apóstolo dos gentios, ficou simplesmente maravilhado com este fato. Ninguém estava mais comprometido com a exclusividade judaica do que Saulo de Tarso; assim, ninguém ficou mais surpreso com o fato de que Deus estava agora, em Cristo, abandonando essa exclusividade e unindo os gentios (os gentios!) com os judeus em um novo tipo de corpo chamado a igreja (3.10). No capítulo dois ele comenta o fato de que Jesus quebrou a barreira que dividia judeus e gentios e dessa forma dos dois grupos fez um novo homem, reconciliando ambos com Deus em um só corpo através da cruz (2.11-16). Até mesmo a sua referência ao casamento – “serão dois numa carne” – relembra-o novamente desse grande mistério, que os dois grupos (judeus e gentios) se tornaram um corpo em Cristo e sua igreja (5.31-32).

Este é o mesmo mistério sobre o qual ele está escrevendo no primeiro capítulo de Efésios. Sim, Deus faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade, mas qual conselho ou plano específico está em vista aqui? O plano para unir judeus e gentios em um só corpo chamado a igreja (3.10) para louvor da sua glória. Este propósito específico é visto nos versículos que imediatamente seguem 1.11: “… com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo; em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória” (1.12-14).

Nestes versículos (como em 1.4-11) o “nós” e o “vós” se referem aos judeus e gentios. Neste caso Paulo se identifica com os judeus, a quem ele chama de “os que primeiro esperamos em Cristo.” Nos versículos anteriores ele se detém no propósito de Deus para os judeus como nação: como Deus os escolheu (“nós”) antes da fundação do mundo, como ele os predestinou para adoção como filhos, como ele lhes ofereceu o evangelho da graça primeiro (veja Rm 1.16; 2.8-9). Deve ser notado que as referências à predestinação em Efésios 1 estão falando estritamente da predestinação da nação de Israel e não dos crentes individuais. Sua principal ênfase até o versículo 12 é sobre o propósito de Deus para os judeus (“nós”). Mas então nos próximos versículos ele começa falando na segunda pessoa, “vós,” ou seja, vós, os gentios. No versículo 12 ele diz que “nós os que primeiro esperamos em Cristo” fomos usados para louvor da sua glória, mas agora “também vós” foram trazidos para a esfera da salvação “para louvor da sua glória” (v. 14). Este é o tema que ele continua para desenvolver, em seguida, nos capítulos dois e três principalmente.

Assim, vemos que “todas as coisas” em Efésios 1.11 não têm uma referência universal; a vontade de propósito ou decretiva de Deus não inclui todas as coisas que acontecem em todo o âmbito da natureza e da história. Todavia, ela inclui o estabelecimento da igreja como o corpo que une judeus e gentios sob uma cabeça, Jesus Cristo (cf. 1.10). Esta é provavelmente a principal referência na comissão de Ananias a Saulo de Tarso, em Atos 22.14, “O Deus de nossos pais de antemão te designou para que conheças a sua vontade” (veja também Colossenses 1.27), a saber, a sua vontade de unir judeus e gentios em uma igreja.

[A maior parte deste material foi tirada do meu livro, What the Bible Says About God the Ruler, 306-309.]

Fonte: http://www.facebook.com/notes/jack-cottrell/does-ephesians-11-11-support-calvinism/10150726363795617

Tradução: Cloves Rocha dos Santos

(Verbum Publicações)

Livro “Calvinismo ou Arminianismo – Quem está com a razão?”- Dowloand

Para quem quer iniciar seus estudos na soteriologia arminiana, este é um excelente livro, recomendo fortemente!

Comecei a ler este livro hoje e confesso que estou surpreso! Escrito pelo irmão Lucas Banzoli, este livro trás uma abordagem de toda a controvérsia entre as duas famosas doutrinas soteriológicas, defendendo a visão arminiana. Estou gostando muito e me controlando para não ler tudo de uma só vez! Recomendadíssimo!

Faça o dowloand do livro clicando aqui. Se desejar comprar o livro físico, clique aqui.

Sinopse do livro

“Calvinismo e arminianismo tem sido um alvo de debate há pelo menos cinco séculos. Ambas são vertentes soteriológicas cristãs evangélicas, que divergem em aspectos como a perda da salvação, a extensão da expiação de Cristo, a predestinação, a graça e o modo com que Deus se relaciona com o homem. Afinal, Cristo morreu por todos ou somente pelos eleitos? Ele ama a todos indistintamente ou somente os escolhidos? Deus determinou tudo ou podemos construir o futuro? Ele predestinou pessoas à salvação e…

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Resenha do Livro: Arminianismo – A Mecânica da Salvação, de Silas Daniel

Pela resenha, um livraço do Pr. Silas Daniel!

Diálogos Teológicos

silas

Por Carlos Roberto

Essa obra literária, chegou em um momento muito pertinente. O autor, é o pastor Silas Daniel, que é conferencista e jornalista, e há tempos, vem escrevendo sobre a teologia arminiana. O grande destaque, desse novo lançamento, é sua abrangência, conteúdo e notas.

Historicamente, o arminianismo no Brasil vem crescendo a cada dia.  Lembro-me, quando a editora Reflexão, traduziu e lançou o livro: Teologia Arminiana – Mitos e Realidades, de Roger Olson. Foi um sucesso! Pois, muitos irmãos, até mesmo calvinistas e reformados, puderam ler e chegar à conclusão de que nossa crença tem fundamento.

Outro fato marcante na teologia evangélica brasileira, foi a tradução das Obras de Armínio para o português em 2015 pela CPAD. Com isso, o amadurecimento do pensamento soteriológico caminhou a passos largos. Agora, em 2017, somos presenteados com um novo livro sobre o arminianismo.

Outras editoras, como a Reflexão, tem um papel fundamental…

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Romanos 9:13-18 e a predestinação

 

Como já afirmei várias vezes, biblicamente todos são predestinados para a salvação (Efésios 1:5) e só se perderá quem assim o escolher (na cruz, Cristo devolveu o livre-arbítrio do ser humano para poder decidir a quem irá seguir – 1 Pedro 1:2).

Os textos a seguir são muito claros em afirmar que Deus não predestina para a perdição eterna: Jeremias 21:8, Ezequiel 18:23 e 32; Mateus 7:21, Atos 10:34, 35, 17:30, 2 Pedro 3:9, Apocalipse 2:10, 22:17, etc. (Você lerá outros versos no presente estudo).

Para entender Romanos 9:13-18 – texto usado pelos Calvinistas “a favor” da predestinação (a não- bíblica), é importante seguir alguns passos (aprendi a fazer tal análise com o Dr. Reinaldo Siqueira, professor de Teologia no Centro Universitário Adventista em Artur Nogueira, SP):

1) Analisar a perícope (bloco de um texto que trata do mesmo assunto), que vai do capítulo 9 ao 11. É importante ler os três capítulos que tratam do mesmo tema, pois, é ao considerar o todo que podemos entender o específico (nesse caso, a mensagem que a Bíblia quer transmitir sobre a predestinação).

2) Ficar atento(a) às seguintes palavras-chave: “eleição” e “coração endurecido”.

Isso ajudará sua mente a entender o uso de tais termos no contexto bíblico.

3) Relacionar as seguintes informações e ideias contidas nos capítulos:

(1) Paulo está falando do povo de Israel;
(2) Deus e Sua Palavra não falharam em relação às promessas ao povo;
(3) Israel errou;
(4) A justiça vem de Deus, nas das obras;
(5) Não há diferença entre judeus e gentios (10:12). Deus abençoa a todos;
(6) Israel era rebelde e desobediente (10:21).

Perceba que o assunto já se torna mais fácil de entender: o endurecimento do coração veio da parte deles. Todo estudioso sabe que Deus é apresentado na Bíblia fazendo coisas que Ele não impede de acontecerem. Portanto, o Senhor não pode ser acusado pelo “endurecimento” do coração do povo (e muito menos de faraó – ver Êxodo 7, 8).

(7) Deus não rejeitou Israel (11:1);
(8) Deus conheceu o Seu povo de antemão (11:2);
(9) Alguns “ramos” (Israelitas) foram cortados por causa da incredulidade deles! (11:20).

Depois dessas informações, podemos concluir que:

(1) O “fazer vasos para a ira” da parte Divina depende da resposta negativa do pecador ao plano de Salvação. A pessoa se torna “vaso de ira” se rebelar-se e se desviar dos caminhos do Criador (11:22 e 23).

(2) Deus não faz ninguém ser um “vaso para ira” (1 Tessalonicenses 5:9), a não ser que a pessoa queira se perder (ver 1ª Timóteo 2:4; Apocalipse 22:17).

(3) O Senhor permitiu que todos, Israelitas e gentios, fossem pecadores (Romanos 3:23) para que todos recebessem a misericórdia (11:32).

Não é por acaso que Paulo finaliza do assunto com um hino de louvor a Deus por Sua Salvação disponibilizada a todas as raças! (compare com Mateus 24:14):

“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!”Romanos 11:36.

E, para finalizar: o texto que “resume a Bíblia” é suficiente (existem muitos outros, como demonstrei no programa) para derrubar a tese de que Deus predestina algumas pessoas “para a perdição”:

“Porque Deus amou ao mundo >[todos] de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê [não somente os “predestinados” no conceito de João Calvino] não pereça, mas tenha a vida eterna.”João 3:16.

Um grande abraço,

(Leandro Quadros)

Uma parábola sobre a soberana eleição

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Um homem muito rico construiu centenas de casa para dá-las de graça aos pobres de um pequeno vilarejo. Ele sondou previamente todos os moradores do vilarejo e certificou-se de quantas famílias pobres existiam ali. Então construiu casa suficiente para todos. A única condição exigida por aquele homem rico para presentear alguém com uma casa, era que as pessoas convidadas por um mensageiro enviado por ele, viessem até a festa de casamento do seu filho, um grande banquete onde ele distribuiria os documentos de propriedade das casas e as chaves. Ninguém precisaria pagar nada, e ninguém estava impedido de vir ao casamento. Visto que eram pobres e não dispunham de roupas adequadas para aquela grande celebração, o homem rico, novamente num ato de bondade, mandou confeccionar belas roupas e em quantidade suficiente para todos os pobres já dantes conhecidos dele. Ao chegar à festa de casamento, bastava que na recepção cada pessoa aceitasse a bonita roupa confeccionada para o casamento e a vestisse para então poder entrar.

A despeito da bondade do homem rico e de seus apelos através de seu mensageiro para que todos os pobres viessem, nem todos vieram. Alguns duvidaram da bondade do homem rico, embora o mensageiro tenha insistido com eles e contado sobre outros atos de bondade de seu senhor; outros se entregaram à preguiça, embora o mensageiro lhes tenha até estendido as mãos; outros preferiram ficar se afogando em bebedeiras e vícios, consumindo os últimos centavos de sua pobreza; outros, orgulhosos, disseram que se um dia tivessem de ter uma casa seria por esforços próprios e não por ajuda de ninguém. Muitos, infelizmente, recusaram a generosa oferta daquele homem rico. Outros até foram, muito entusiasmados, à festa de casamento, mas chegando lá tentaram entrar com suas próprias roupas sujas e rasgadas, dizendo grosseiramente: “se este rico é realmente bom, então ele não deve se importar que eu entre com minhas roupas”, outros, recusando as belas e limpas roupas oferecidas na recepção, se queixavam: “eu não vim aqui pra ganhar roupas, eu só quero a minha casa!”. Por mais absurdo que pareça, algumas pessoas recusaram as novas vestes, limpas e decentes. Não puderam entrar com suas roupas sujas. A ordem do homem rico era expressa!

Entretanto, alguns pobres, muitos na verdade, ouvindo o convite do mensageiro e sendo ajudados e guiados por ele até o lugar da festa, prontamente aceitaram as roupas, vestiram-se e entraram no local da festa de casamento. Até ali ninguém havia no local, pois eles mesmo, ainda que não soubessem, eram os ilustres convidados para a festa. O noivo recepcionava junto com o mensageiro cada pessoa que entrava. Ansiosas, as pessoas queriam ver o homem rico, conhecê-lo e saber o porquê de tamanha generosidade. Mas apenas seu filho estava ali, mas quem conhecia o homem rico sabia que o filho era a cara do pai e tinha o mesmo caráter que ele. No final da festa, é o próprio filho, o noivo, quem chama pelo nome cada uma daquelas pessoas à frente, e lhes entrega as chaves de suas novas casas. Um por um, com largo sorriso de gratidão no rosto, outros com lágrimas nos olhos, recebiam as chaves e agradeciam. Com um detalhe: aquelas vestes foram dadas de presente aos convidados, e as casas eram muito mais belas e confortáveis do que foi permitido ao mensageiro falar. O homem rico desejou que a surpresa fosse muito maior!

No fim, nem os pobres que ficaram de fora do casamento e que foram impedidos de receber suas novas casas poderiam se queixar, taxando o homem rico de injusto ou mau, pois a eles também foi estendido com sinceridade e insistência o convite. Eles sabiam que a culpa residia só neles de não terem cumprido a condição que lhes foi exigida e para a qual nenhum preço precisava ser pago. Recusaram até mesmo a boa mão do mensageiro que se estendeu para eles!

E também aqueles que foram à festa de casamento e lá receberam vestes novas e as chaves de suas novas e lindas casas jamais poderiam dizer que foram merecedoras daquele grande presente, pois nada, absolutamente nada fizeram para merecer, mas apenas para receber o que foi pago e construído com esforços e dinheiro do homem rico, não deles. A eles restava apenas serem para sempre agradecidos ao homem rico, que sem nenhuma obrigação manifestou para com eles a sua bondade. Em tempo oportuno, o próprio homem rico foi pessoalmente falar com cada um dos novos moradores das casas que ele construíra. Só aí então os pobres, agora enriquecidos, o conheceram e a emoção foi inenarrável!

(Tiago Rosas)

Texto e contexto de João 6:44

“Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair” – João 6.44

Um ótimo texto sobre a relação da Trindade na salvação dos pecadores! A atuação do Pai e do Filho são explícitas, mas a do Espírito Santo está implícita neste texto. Vejamos:

Cristo é o Salvador para quem os pecadores devem vir, a fim de que sejam perdoados e justificados. Todavia, ninguém vem a Cristo sozinho, por iniciativa própria ou por mera investigação intelectual sobre a pessoa de Cristo. Uma obra interna no coração e na consciência do homem precisa antes ser feita para que o pecador olhe para Jesus e veja nele o seu Salvador pessoal. É aí onde o Pai entra: Ele envia ao coração do pecador o Espírito Santo que falará e chamará o pecador afim de atrair seu olhar na direção de Cristo. É o Espírito Santo enviado do Pai que convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8). Mas sua ação persuasiva não é irresistível, pois não atua por força onipotente contra a qual os pecadores não possam resistir, mas com graça, que é branda, gentil e amorosa. Por isso a queixa do pregador Estevão contra os judeus incrédulos: “Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo” (At 7.51), e por isso a reiterada advertência aos cristãos judeus para que não decaíssem da fé em Cristo outrora abraçada: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações” (Hb 3.7,8,15; 4.7).

QUEM SÃO ESTES QUE O PAI ATRAI A JESUS? O próprio Jesus responde a essa pergunta um versículo depois: “Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim” (v. 45b). O Pai não traz ninguém incondicionalmente a Jesus, nem o faz por força irresistível, mas pelo FALAR e ENSINAR que produz a fé no coração do pecador! Jesus deixa claro como a luz do sol ao meio dia em céu aberto que são aqueles que ouvem do Pai e dele aprendem que “vem a mim” – uma prova de que a disposição para ouvir e aprender de Deus é necessária no coração do pecador afim de que ele compreenda quem é Jesus e porque dele precisa (disposição esta que faltou aos judeus, mas sobrou aos gentios em Atos 13.46-48). O apóstolo Paulo diz que a fé vem pelo OUVIR e ouvir a Palavra de Deus (Rm 10.17). Pelo Espírito Santo, através da Palavra, o Pai fala ao coração dos pecadores (e os judeus já tiveram outrora a Lei e os Profetas que lhes falavam e ensinavam sobre o Messias [Jo 1.45], todavia como os judeus nos dias de Jesus não compreenderam devidamente as Escrituras por não examina-las corretamente [Mt 22.29], e devido estarem mais apegados a tradições de homens que às Escrituras de Deus [Mt 15.6], não puderam discernir quem era Jesus, não puderam compreender quem lhes falava, e, portanto, recusaram deliberadamente nele crer! [Lc 12.56; Jo 5.39,40]).

Jesus mesmo havia declarado aos judeus que lhes FALAVA e ENSINAVA (em obediência ao Pai) palavras para “que vos salveis” (Jo 5.34). Esse era o grande objetivo de sua pregação: a salvação dos pecadores! Todavia, por que embora Jesus falava pelo Espírito os judeus não creram nele? Não por indisposição ou falta de graça do Pai, mas simplesmente porque “não quereis vir a mim para terdes vida” (Jo 5.40). Aliás, em parte alguma da Bíblia está dita uma só vez que o Pai não quer a salvação de qualquer pecador (a não ser aqueles casos em que a salvação oferecida foi reiteradas vezes recusada), mas sempre se diz que os próprios pecadores é que resistem e recusam a graça salvífica de Deus (conf. Mt 23.37-38). Paulo é taxativo: “Deus quer que todos os homens sejam salvos” (1Tm 2.4). O próprio Jesus declarou no capítulo 6 de João que “A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6.29). E Jesus disse isso não a seus apóstolos, não a seus eleitos, mas aos incrédulos aos quais ele queria salvar! Esta é a obra da Triunidade: que os homens creiam no Apóstolo de Deus, no Ungido de Deus, no Messias, Jesus, o Cristo! Até mesmo quando os samaritanos recusaram Jesus, ele não cedeu ao ímpeto rancoroso dos discípulos para fazer descer fogo do céu sobre aquele povoado, antes declarou: “o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las” (Lc 9.56). Os que não se salvam não é porque o Pai não quis atraí-los, puxá-los, arrancá-los das garras do pecado e trazê-los a Jesus, mas tão somente porque eles recusaram ouvir a Deus que lhes falava pelo Espírito Santo! Endureceram-se para as boas novas do Evangelho, ainda que tenham sido convidados genuinamente a desfrutar de suas bençãos espirituais.

Concluindo: ninguém vai a Jesus a menos que o Pai o leve. O Pai não levará ninguém a menos que o Espírito Santo convença. O Espírito Santo não convencerá ninguém a menos que o homem pecador aceite livremente o curso da graça de Deus em seu coração pela Palavra de Deus pregada, reconhecendo seu estado de pecado e sua necessidade do Salvador. E este foi o erro dos judeus: a despeito de todo investimento de Deus sobre eles (conf. Is 5.1-7; Jr 44.4,5; Mt 22.1-8), eles permaneceram incrédulos e, não raras vezes, atribuindo ao diabo as obras que Jesus realizava – o que somente acentuava a condenação deles!

Amigo, não resistas ao chamado de Deus, não desprezes os apelos do Pai, nem feches a porta ao Espírito Santo. Deixa que a obra de Deus tenha livre curso em teu coração: CREIA EM CRISTO, o enviado do Pai para tua salvação!

(Tiago Rosas)