Livro “Princípios do Homeschool Adventista”

Quem quiser saber mais sobre a prática de Homeschooling (educação no lar) adventista, sugiro a leitura deste pequeno material.

“A única sala de aula para as crianças de oito a dez anos, deve ser ao ar livre, entre as flores a desabrochar e os belos cenários da Natureza, sendo para elas o livro de estudo mais familiar os tesouros da mesma Natureza. Estas lições, gravadas na mente das tenras crianças por entre as agradáveis e atrativas cenas campestres, jamais serão esquecidas.” {Ellen G. White, Fundamentos da Educação Cristã, p. 21}

Livro para download aqui.

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Uma interessante compilação!
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A exposição das crianças às telas

A exposição de crianças às telas é bastante comum em nosso meio. Desde a mais tenra idade, smartphones, TV’s, DVD’s, computadores, tablets, etc. são ferramentas utilizadas pelos pais para distrair os menores em casa, na igreja, durante as refeições… A psicóloga Karyne Correia, do Portal Pequenina Luz, fez dois podcasts excelentes sobre o tema, dando orientações e advertências sobre essa prática, além de dicas sobre como evitar esses recursos na educação dos filhos. Confira abaixo os podcasts e alguns conselhos da irmã White!

“Quanto mais simples e tranquila a vida de uma criança – quanto mais livre de estimulação artificial e quanto mais em harmonia com a natureza – tanto mais favorável é ela ao vigor físico e mental, e à robustez espiritual.” {O Desejado de Todas as Nações, p.74}

“O que a criança vê e ouve produz impressões profundas na mente tenra que nenhuma circunstância posterior da vida poderá desfazer completamente” {Orientação da Criança, p.124}

Por que crianças educadas em casa gostam de ler

Com a ausência de obrigação horários rígidos, o amor genuíno pela literatura pode florescer

 
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Mais um benefício da Educação Domiciliar. Imagem: Divulgação.

Eu vi essa manchete no jornal Harvard Gazette, em 13 de outubro: “Histórias de Vida Deixam Bibliófilo de Harvard Grudado nos Livros”. Meu primeiro pensamento foi: “Aposto que ele teve foi educado em casa.” 

Ele foi.

A reportagem descreve a experiência de um aluno do terceiro ano na Universidade de Harvard, Luke Kelly, que cresceu no Mississipi e foi educado em homeschooling durante a maior parte da sua infância. A maior parte do seu tempo era ocupado lendo e desenvolvendo uma paixão por livros e literatura. 

Por que eu suspeitei que um estudante universitário bibliófilo havia sido educado em casa antes mesmo de ler a matéria? Porque a maioria das pessoas educadas em casa ama ler – quer dizer, eu amo muito ler. Muitos deles desenvolvem essa afinidade porque têm tempo, espaço e liberdade para lerem o que quiserem, quando quiserem e como quiserem. 

Livre das amarras da escola tradicional que ditam o material a ser lido e cria níveis de leitura arbitrários, estudantes educados em casa aprendem rapidamente que os livros são ferramentas vitais para descoberta e conhecimento. Eles não são instrumentos para tarefas penosas. São narrativas empolgantes que entretêm e edificam. 

 

Com homeschooling, a leitura não é uma disciplina separada que deve ser visitada com determinada frequência ou de determinado jeito; em vez isso, é uma parte integral da aprendizagem geral. Visitas à biblioteca não são reservadas a blocos de 40 minutos por semana com uma aula ministrada por um bibliotecário. Estudantes de homeschooling costumam passar horas na biblioteca, dissecando as prateleiras em busca de uma boa história, pedindo ajuda para os bibliotecários quando necessário, explorando a vastidão dos seus recursos físicos e digitais. 

E como eles leem! Minha filha mais velha já leu mais livros nos últimos seis meses do que eu li durante toda a minha trajetória na educação básica em escola pública. 

Estudantes de homeschooling também conseguem aprender a ler no seu próprio ritmo, no seu próprio tempo, seguindo os seus próprios interesses. Na escola tradicional, a leitura é disciplinada. As crianças aprendem a ler de um jeito específico, seguindo um currículo específico, em um tempo específico. Cada vez mais, esse tempo está sendo empurrado para faixas etárias mais jovens. Crianças na educação infantil agora devem cumprir longos períodos de estudo disciplinado que antes eram reservados para crianças mais velhas. Até mesmo alunos de pré-escola estão sendo pressionados. 

Erika Christakis, autora do livro “The Importance of Being Little” (“A Importância de Ser Pequeno”, em tradução livre), escreve sobre as mudanças drásticas na primeira fase da educação infantil. Ela explica que grande parte dessa mudança originou-se de um currículo mais padronizado, voltado para as diretrizes comuns, e testes obrigatórios mais exigentes. Christakis escreve: 

“Como poucos adultos conseguem se lembrar de detalhes importantes do seu período de pré-escola ou jardim de infância, pode ser difícil reconhecer o quanto o cenário das fases iniciais da educação infantil se transformou nas últimas duas décadas (…) Uma criança que deve ser capaz de ler até o final da educação infantil precisa começar a se preparar desde o começo. Como resultado, expectativas que poderiam ter sido razoáveis para crianças de 5 ou 6 anos de idade, como a habilidade de sentar-se em uma carteira e cumprir uma tarefa utilizando lápis e papel, agora são direcionadas para crianças ainda mais novas, que não têm a capacidade motora e a concentração necessárias para ter sucesso nessas tarefas. As salas de aula pré-escolares se tornaram espaços cada vez mais cheios, com professores cobrando que eles terminem o seu ‘trabalho’ antes de poderem brincar.” 

Os professores estão começando a internalizar esses padrões, em vez de questioná-los. Como a professora de educação, Daphna Bassok, e seus colegas na Universidade da Virgínia descobriram, em 1998, 31% dos professores acreditavam que as crianças deveriam aprender a ler durante o jardim de infância. Em 2010, esse índice era de 80%. 

Muitas crianças que ainda não estão prontas para ler durante esse período escolar cada vez mais padronizado e hermético são golpeadas com um rótulo de distúrbio de aprendizagem e recebem um Plano de Educação Individualizado para que possam alcançar o resto do bando. Isso pode criar ressentimentos, não apenas em relação à leitura, mas à aprendizagem como um todo. 

Estudantes de homeschooling evitam a padronização e regulação da educação obrigatória, e, como resultado, a sua aprendizagem é geralmente mais rica e mais significativa. E também mais prazerosa. 

Então eu não fiquei surpresa que um universitário bibliófilo tenha sido educado em casa. Eu ficaria surpresa se ele não fosse. 

(Kerry McDonald é bacharel em Economia pela Bowdoin College e mestre em políticas educacionais pela Universidade de Harvard. Ela vive em Cambridge, Masachuscetts., Estados Unidos, com o seu marido e quatro filhos, que nunca frequentaram a escola. Acompanhe o seu trabalho em Whole Family Learning. Publicado originalmente no site da FEETradução: Andressa Muniz)

(Gazeta do Povo, grifos meus)

Educação Domiciliar no Brasil: sala de aula dentro de casa

Falta de adaptação ou escola ruim levam pais a optar pelo ensino em casa.
Mas não matricular filhos em escolas pode criar problemas com a Justiça.

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Educação domiciliar em destaque na mídia. Imagem: Divulgação.

Assista ao vídeo da matéria AQUI.

Pelo menos cinco mil famílias brasileiras trocaram a escola formal dos filhos pelas aulas em casa. Mas várias delas acabaram processadas. O assunto foi parar no Supremo Tribunal Federal.

A sala de aula não fica numa escola. Ana Júlia, de 10 anos, estuda em casa, com a mãe. Os irmãos, Ricardo, de 7 anos, e Sophia, de 4, também.

Tudo começou porque Ricardo não se adaptava às aulas na escola. Milene virou professora do filho durante um semestre e achou o resultado muito melhor.

“Quando vi no final do ano toda aquela evolução, falei: não é possível que tenha sido por acaso”, contou a fisioterapeuta Milene Góes.

No ano seguinte, foi a vez de a Ana Júlia sair da escola.

“Eu vi que era totalmente possível também ela ter uma educação mais personalizada, uma educação direcionada conforme as necessidades dela”, explicou Milene.

Para a família da Milene e para muitas outras no Brasil, a escola não é o único lugar onde os filhos podem ter aula, aprender, receber o que a gente chama de educação formal.

Pode ser por dificuldade de adaptação da criança em uma sala de aula cheia de gente ou porque os pais consideram que a escola é ruim e que o resultado em casa pode ser melhor.

Mas a decisão de não matricular os filhos numa instituição de ensino é polêmica, divide os especialistas e pode criar problemas com a Justiça.

Na Constituição brasileira está escrito que a educação é um direito de todos e um dever do estado e da família.

“O estado não pode proibir um pai, uma mãe de educar seu filho fora dos muros escolares. O que desejamos é a autonomia educacional da família. Que a família tenha a prerrogativa de decidir se coloca os filhos na escola ou se os educa fora da escola”, disse Ricardo Dias, presidente da Aned.

Mas se a Constituição dá margem à discussão, as leis que tratam desse assunto não dão: para o Estatuto da Criança e do Adolescente, não matricular os filhos é descumprir os deveres inerentes ao poder familiar.

E o Código Penal diz que é crime de abandono intelectual deixar de prover a instrução primária de filho em idade escolar.

Das cinco mil famílias que educam os filhos em casa, 60 já tiveram problema com a Justiça. Mas nenhuma foi condenada por abandono intelectual.

O impasse acabou na mais alta corte do país. O Supremo Tribunal Federal deve analisar em breve o caso de uma família que está sendo processada por não levar os filhos para a escola.

A decisão dos ministros pode confirmar a obrigatoriedade da matrícula ou abrir um precedente para permitir o ensino em casa.

Luciane Muniz Ribeiro Barbosa, professora de educação da Unicamp acredita que a educação domiciliar só poderia ser admitida com o acompanhamento do estado, para assegurar o aprendizado da criança. É assim que acontece nos Estados Unidos e no Canadá, por exemplo.

“Há um registro feito por essas famílias ou nas escolas ou na diretoria de ensino. Na minha avaliação, a gente precisa que o estado supervisione se, de fato, essas crianças estão tendo educação”, disse.

O ex-ministro da Educação Renato Janine é contra o ensino apenas em casa. Para ele, a socialização que a escola promove é fundamental para toda criança.

“Educar é tirar a pessoa do mundo fechado e levar para o mundo aberto com toda a sua diferença. Educar é abrir para o mundo. Então é muito importante que, desde cedo, a criança perceba que o mundo tem uma diversidade muito grande e que essa diversidade seja uma promessa, uma oferta, não uma ameaça”, afirmou. [Como se no modelo Homeschooling não tivesse isso…]

(G1 – Jornal Nacional, grifos e colchetes meus)

Leia mais sobre Homeschooling aqui e aqui.

Educação domiciliar cresce no Brasil com curso online e vitória parcial no STF

Segundo associação, o ensino doméstico cresceu mais de 900% em cinco anos. Cerca de 3,2 mil famílias adotam o método no Brasil

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Manoela e Leonel Martins, de Curitiba: opção pelo ensino em casa

Ainda recente no Brasil, o homeschooling – ou ensino doméstico – tem crescido cada vez mais rapidamente. A criação de cursos e material didático em português, acompanhada pela preocupação crescente com a qualidade do ensino tradicional, impulsionam essa alta. Além disso, uma decisão judicial recente reduziu as incertezas sobre o tema e deu tranquilidade, ao menos temporária, às famílias que optam por manter os filhos fora da escola.

Apesar de defendido no exterior por nomes como John Taylor Gatto – ex-professor da rede pública norte-americana cujo artigo “I Quit, I Think”, publicado em 1991 no Wall Street Journal, é considerado um dos marcos do homeschooling moderno –, o ensino doméstico sempre enfrentou resistência no Brasil. A principal razão é jurídica: o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), por exemplo, permite a punição de pais que não matriculam suas crianças na escola. Ainda assim, o número de famílias que optam por esse tipo de ensino cresce exponencialmente.

Os motivos que levam os pais a adotar esse método são diversos: desilusão com o sistema educacional público e privado, receio de um convívio nocivo nas escolas ou apenas a intenção de conduzir mais de perto a formação dos filhos.

Segundo a pesquisa mais recente da ANED (Associação Nacional de Educação Domiciliar), a prática do ensino doméstico aumentou 916% entre 2011 e 2016. Atualmente, há 3.200 famílias, com cerca de 6 mil crianças e adolescentes, utilizando esse método de ensino – mais da metade nas regiões Sudeste e Sul. E um acontecimento recente deve encorajar mais família a aderir ao método.

“Depois da decisão do Supremo Tribunal Federal de suspender todos os processos na Justiça que versavam sobre educação domiciliar, os pais estão perdendo o medo”, diz Ricardo Iene Dias, presidente da ANED. Ele se refere ao RE (Recurso Extraordinário) 888815 do Supremo Tribunal Federal, de relatoria do ministro Luís Roberto Barroso, que em dezembro do ano passado suspendeu todas as ações que tratassem do tema.

Mesmo sendo a principal entidade nacional sobre o assunto, a ANED não indica método ou currículo padrão para o homeschooling. “Precisamos entender que as famílias são diferentes. Depois, sabemos que estamos apenas começando a construir a história da educação domiciliar no Brasil”, diz ele, que prossegue:  “Daqui a alguns anos, teremos muitos métodos e um vasto material didático, como já acontece em outros países”.  Aos poucos, entretanto, os brasileiros passam a produzir conteúdo próprio.

Criado em 2013 por Gustavo Abadie e sua esposa, Camila Hochmüller Abadie, o blog Encontrando Alegria foi iniciado com o objetivo de compartilhar a experiência de uma família “homeschooler” por meio da da visão da mãe. Como consequência do sucesso da página – que possui mais de oito mil seguidores no Facebook – Gustavo e Camila ofertam o que eles definiram como “o primeiro curso de homeschooling do Brasil”, por meio do Instituto Virtual Isidoro de Sevilha. Com custo fixo de R$ 250, o programa é voltado para os pais e oferece “a base completa para começar a estimulante caminhada do ensino em casa”, com a origem da educação domiciliar, seus fundamentos jurídicos no Brasil e até os diferentes métodos e materiais disponíveis. “Desde 2015, já tivemos mais de 300 alunos”, destaca Gustavo.

Para Gustavo Abadie, a crítica de alguns educadores de que o homeschooling promove o isolamento social dos jovens é infundada. “Isto não é verdadeiro. A possibilidade de alienação é possível, sim, na educação domiciliar, especialmente quando os pais educadores têm uma visão estreita do homeschooling. Mas também é possível na escola através do bullying e outros problemas”, afirma.

Mãe de um menino de seis anos de idade em Curitiba (PR), a professora Viviane Canello tomou conhecimento do método por meio de autores estrangeiros. Hoje, ensina ao filho todas as disciplinas dadas em uma escola regular. “Obviamente, no futuro vou recorrer ao auxílio de tutores, cursos e também buscar mais bibliografia sobre outros campos de estudo”, pondera a mãe, cuja maior crítica reside nas intervenções do Estado sobre o ensino nacional público e privado.

“Fui professora na rede pública e privada, vi deficiências em várias áreas, queixas constantes de pais que possuíam conhecimento especializado em educação e em outras áreas, além das intervenções indevidas dos agentes do ensino estatal em questões que só dizem respeito às famílias”, explica Viviane. Para ela, o modelo educacional padronizado e a ineficiência do MEC justificam a opção pelo homeschooling.

Apesar da vitória parcial no STF, os pais que optam pelo ensino doméstico ainda não têm segurança jurídica plena. O Ministério da Educação, por exemplo, considera o homeschooling ilegal e inconstitucional. O plenário da suprema corte ainda vai decidir sobre o tema, em data a ser definida. Mas, pelo menos até lá, milhares de famílias brasileiras continuarão mantendo seus filhos longe da escola.

Famosos que foram educados em casa [Jesus Cristo é outro exemplo, talvez o mais “famoso”]

1) George Washington – o primeiro presidente dos Estados Unidos foi educado por tutores, em casa, durante a infância.

2) Thomas Edison – Tido como um aluno “devagar” por um professor, ele foi retirado da escola pela mãe, que se encarregou de educá-lo. Tornou-se o inventor da lâmpada elétrica.

3) Serena e Venus Williams – A dedicação ao tênis prejudicava os compromissos escolares das irmãs. A família optou pelo ensino doméstico.

4) Jonas Brothers – Muitos praticantes do homeschooling nos Estados Unidos são cristãos conservadores. Este é o caso dos pais dos três cantores. Em vez de ir à escola, eles foram educados pela mãe.

5) Justin Bieber – Por causa do sucesso precoce como cantor, ele deixou a escola e passou a estudar em casa.

(Gazeta do Povo)

Nota: Declarações da educadora Ellen G. White

É no lar que a educação da criança deve ser iniciada. Ali está sua primeira escola. Ali, tendo seus pais como instrutores, a criança terá de aprender as lições que a devem guiar por toda a vida — lições de respeito, obediência, reverência, domínio próprio. (Orientação da Criança, p.17)

Jesus adquiriu Sua educação no lar. Sua mãe foi-Lhe a primeira professora humana. (A Ciência do Bom Viver, p.399)

Os pais mandam os filhos à escola; e ao fazê-lo pensam que os têm educado. Mas a educação é uma questão de maior amplitude do que muitos pensam: compreende todo o processo pelo qual a criança é instruída, desde o berço à infância, da infância à juventude, e da juventude à maturidade. (Orientação da Criança, p.26)

Para os primeiros oito ou dez anos da vida de uma criança, o campo ou o jardim é a melhor sala de aula, a mãe é o melhor professor, a natureza o melhor livro. (Educação, p.208)

É costume enviar crianças muito novas à escola. Exige-se delas estudarem nos livros coisas que sobrecarregam a mente infantil. … Tal procedimento não é sábio. (Fundamentos da Educação Cristã, p.416)

Entrevista com Daniel Silva e Luiz Cietto – Filme “Opostos”

Conheça a história inspiradora de dois homens que eram moradores de rua e, graças a dedicação aos estudos, mudaram completamente de vida. Um trabalhou na Receita Federal. O outro foi o fundador do curso de Enfermagem da Unicamp. Hoje moram em Artur Nogueira e Eng. Coelho

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“Nós somos a prova viva do poder transformador da Educação” (Cietto e Daniel)

Texto: Alex Bússulo / Produção: Rafaela Martins, Paulo Holdorf, Schermen Dias / Fotos: Renan Bússulo

A entrevista a seguir talvez seja a mais inspiradora já publicada por este veículo de comunicação. Você vai conhecer a história de dois homens. Dois eternos amigos que vão nos passar uma belíssima lição de vida, de amizade, de superação e de valorização da família. Você também vai ver como a educação pode transformar vidas.

Os dois fugiram das casas dos pais e foram morar nas ruas. Viviam uma realidade miserável em São Paulo, dormindo em construções e carros abandonados. Sempre com muita fé em Deus, os dois, ambos adventistas do Sétimo Dia, estudaram e conseguiram mudar radicalmente de vida. Um deles se transformou em auditor da Receita Federal e outro foi o criador do curso de Enfermagem da Unicamp. Hoje, ambos com 80 anos de idade vivem em Artur Nogueira e Engenheiro Coelho.

Para entendermos melhor essa história precisamos voltar há algumas décadas. Por volta dos anos 50, Luiz Cietto morava com os pais e mais sete irmãos em São Carlos/SP. A infância dele não foi nada fácil. “Meu pai era muito rigoroso. O sistema de educação dele era muito severo. Ele não admitia deslizes. E pequenos deslizes significavam grande sovas de rabo de tatu, que era um tipo de reio feito de couro de gado, couro cru. Essa situação de sofrimento acabou gerando um certo espírito de revolta. E daí eu resolvi sair de casa”, relembra Cietto.

Não querendo mais apanhar do pai e em busca de um futuro melhor, Cietto arrumou algumas poucas peças de roupas e fugiu de casa. Pegou o trem e foi para a grande São Paulo. Sozinho, sem dinheiro e sem saber o que fazer, o jovem enfrentou um grande desafio. “Ao chegar em São Paulo, quando desembarquei na Estação da Luz, me deparei com a verdade nua e crua. Uma selva de pedras como São Paulo, sem conhecidos, sem dinheiro, sem casa, sem alimento. Passei a viver na rua”, afirma Cietto.

Daniel teve uma história muito parecida com a de Cietto. Daniel morava com os pais e dez irmãos em uma fazenda em Jaboticabal/SP. E, assim como Cietto, o relacionamento com a família não era nada bom. “Meu pai era um homem muito rigoroso, eu apanhava muito, apanhava de graça. Quando ele ia bater em um, que tinha aprontado alguma arte, ele mandava abraçar dois a dois e batia em quase todos os filhos. Com isso comecei a ficar com ódio de meu pai. Minha intenção e meu pensamento era que quando eu ficasse homem eu pegaria ele pelo pescoço e o mataria. Eu tinha esse propósito. Depois eu pensei bem, sabia que se fizesse isso iria parar na cadeia, então arrumei um dinheirinho e fugi de casa”, relembra Daniel, que também foi para a grande São Paulo.

E foi lá, em uma das maiores cidades do mundo, que o destino cruzou o caminho dos dois garotos. “Em uma tarde, eu estava em frente a uma padaria pedindo comida, quando vi um garoto sozinho, mais ou menos do meu tamanho, idade parecida. Então me aproximei dele e comecei a conversar. Descobri que ele estava em uma situação muito parecida com a minha, então começamos a andar juntos, a partir daquele momento nunca mais nos separamos um do outro”, relembra Daniel.

Os dois passaram a sobreviver em São Paulo. “Descobrimos que dava para utilizar alguns carros, veículos abandonados, para dormir. Adotamos a filosofia da sobrevivência. A gente tinha que ser bastante hábil para conseguir as coisas. Descobrimos que o jornal é um elemento fantástico para nos proteger do frio. A gente enrolava jornais velhos nos braços, nas pernas, colocava algumas folhas de jornal por cima e ficava quentinho”, afirma Cietto.

Os dois amigos relembram que para tomar banho tinham que fazer praticamente uma viagem. “Nós subíamos nos bondes e íamos para Santo Amaro/SP onde havia uma represa. Chegávamos lá, tirávamos e lavávamos as nossas roupas e, enquanto elas secavam na grama, tomávamos banho na represa”, conta Cietto.

Boa parte do tempo, Cietto e Daniel passavam dentro da Biblioteca Pública de São Paulo, onde liam de tudo, dos clássicos, passando pelos religiosos aos livros de autoajuda. “Era uma coisa que a gente fazia porque eu gostava de ler e ele também. Nós entrávamos na biblioteca e passava o dia ali, lendo”, conta Daniel.

Cietto complementa: “A gente lia os jornais, procurava emprego, lia livros. Eu, por exemplo, li muitos livros de crítica literária, clássicos como Machado de Assis. Isso me deu uma base que depois, como advogado, foi uma ferramenta indispensável para escrever bem”, afirma Cietto.

Os dois jovens tinham todas as desculpas imagináveis para entrar no mundo do crime. Falta de apoio familiar, falta de dinheiro, falta de atenção. Mas eles decidiram ir em busca de algo melhor. “Essa fase de menino de rua foi uma fase que poderíamos chamar de contraditória, porque tinha tudo para nos levar para vida do crime. Porque um garoto no meio da rua, no meio de marginais, drogados, traficantes e bêbados tem tudo de ruim para ser influenciado”, conta Cietto.

A vida não foi nada fácil, até o surgimento do primeiro emprego. “Nós precisávamos encontrar um emprego então fomos atrás das oportunidades. Lembro-me como se fosse hoje, entrei em uma tinturaria de um japonês e pedi uma oportunidade para trabalhar. O dono não queria me contratar, pois eu era menor de idade. Mesmo assim eu insisti e pedi uma oportunidade. Acho que o japonês ficou com pena e me deu o emprego. Minha tarefa era buscar e entregar as roupas dos clientes. Como tinha muita vontade de trabalhar, aprendi a lavar e a passar roupas e, logo, fui promovido a passador. Foi nesse período que conseguimos sair das ruas”, relembra Daniel.

Com o emprego, Daniel alugou um pequeno quarto no porão de uma pensão, onde dividia a moradia com o único amigo. “Nós dormíamos juntos em uma caminha de solteiro. Além do aperto, tinha um cano da pensão que passava bem em cima da cama e gotejava muito. Então, a gente levantava, pegava o cobertor e o lençol sentava no chão e dormia sentado. Era ruim, mas muito melhor do que dormir nas ruas”, conta Daniel.

O tempo passou e uma nova oportunidade de trabalho surgiu. Desta vez para os dois amigos. “Nós descobrimos que o Hospital das Clínicas em São Paulo estava admitindo atendentes de Enfermagem. A essa altura, já tínhamos idade para poder trabalhar. Fomos até o hospital e fizemos um teste psicotécnico. Quando o resultado saiu foi apontado que nós dois não poderíamos trabalhar porque tínhamos problemas psicológicos. Daí, nós falamos que se estávamos doentes deveríamos ser tratados ali, afinal estávamos em um hospital. O homem então disse que era para retornarmos no dia seguinte. Quando voltamos o mesmo homem disse que havia ocorrido um equívoco e que nós tínhamos passado no teste. A partir daí fizemos um treinamento e começamos a trabalhar”, afirma Cietto.

Como atendentes de Enfermagem, naquela época, Daniel e Cietto passaram a cuidar dos pacientes. “Fazíamos o básico, como dar banho, levar para o banheiro. Hoje, não existe mais essa função de atendente”, afirma Cietto.

Depois de alguns anos, os dois atendentes quiseram ir mais longe. “Fomos até o Departamento de Enfermagem e pedimos para a diretora uma audiência com o superintendente do hospital. Explicamos que queríamos pleitear ao diretor uma bolsa de estudos para fazer o curso superior de Enfermagem. Para falarmos com o superintendente, e também com a diretora, utilizamos uma técnica que aprendemos ao ler o livro ‘Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, do autor Dale Carnegie, que lemos na biblioteca. Conversamos com o superintendente e conseguimos a bolsa de estudo. Lembro-me que éramos poucos homens cursando Enfermagem no meio de mais de 50 mulheres. Havia muito preconceito. Mas conseguimos estudar e concluir o curso”, afirma Cietto.

Depois de terminar a universidade, os dois amigos se tornaram enfermeiros chefes do Hospital das Clínicas, onde lideravam vários setores. Cietto continuou se especializando na área da Saúde, fez vários cursos de pós-graduação, incluindo mestrado e doutorado. Como professor de Enfermagem, deu aula na Universidade de Mogi das Cruzes e na Universidade de Londrina, no Paraná. Em 1978 ingressou na Unicamp onde chegou a exercer a função de professor titular. Depois fez pós-doutorado nos Estados Unidos, na Columbia University. Cietto também fez pós-doutorado em Direito, onde aliou Direito e Saúde, fazendo pesquisas na Universidade de Bolonha, que é a mais antiga da Europa. “Na Unicamp, fui o fundador da faculdade de Enfermagem, também fui um dos fundadores do Hospital das Clínicas. Eu que organizei o primeiro vestibular na Unicamp para área de Enfermagem, supervisionei, corrigi provas. Daí então o curso foi crescendo, eu fui estruturando o corpo docente e iniciei com professores que eram enfermeiros do próprio hospital”, afirma Cietto.

Já Daniel buscou outras áreas. Fez Contabilidade. Quando terminou a graduação viu um edital de convocação para um concurso de auditor da Receita Federal. Se inscreveu, prestou o concurso e logo recebeu uma boa notícia. “Passados uns 15 dias após eu ter feito o concurso recebi um telegrama em casa da Receita me convocando com urgência, mas eu não dei muita bola porque achava que não tinha ido muito bem na prova. Achei que o telegrama era a respeito de documentação, etc. Aí chegou um segundo telegrama marcando dia e hora para posse, aí fui correndo lá. Depois de um ano de treinamento me tornei auditor da Receita Federal”, conta Daniel, que se aposentou em 1984. No meio deste tempo ele também cursou a faculdade de Direito.

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Outra lição transmitida por estes dois amigos é que após o crescimento profissional eles não se esqueceram da família. “Quando eu já estava formado, bem de vida, voltei para a cidade que meus pais moravam, lá em São Carlos, e os convidei para virem morar comigo, em São Paulo. Eles aceitaram e se mudaram. Acompanhei os dois até o final da vida deles. Era interessante, porque antigamente meu pai era o durão, depois quando veio morar comigo ele passou a me respeitar, afinal eu era um doutor. Essa foi a oportunidade de um relacionamento com a família. A reação poderia ser totalmente adversa, eu poderia rejeitar minha família, mas não fiz isso. Fiz o que pude para eles porque era o certo a fazer”, afirma Cietto.

Daniel fez a mesma coisa. “Quando voltei para a casa dos meus pais, eles até se assustaram, pois pensavam que eu já estivesse morto, pois fiquei anos fora, sem dar notícia. Arrumei uma casa, toda mobiliada, e os trouxe para São Paulo”, afirma Daniel.

Cietto casou-se e teve duas filhas. Hoje, mora com a esposa no Condomínio Lagoa Bonita, em Engenheiro Coelho. Daniel também casou-se e teve três filhos. Atualmente ele mora em Artur Nogueira, onde tem um escritório de advocacia no centro da cidade. Mesmo após tantos anos passados, os dois continuam amigos inseparáveis.

A história de vida destes dois já virou um documentário (ASSISTA: Parte 1, Parte 2) e, agora, está sendo retrata em um longa-metragem produzido pela Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia, localizada nos Estados Unidos. Uma lição de vida que será transmitida para vários países. “Independente da origem da pessoa, seja ela pobre ou rica, ela pode mudar de vida, se ela estudar, correr atrás, não precisa ter dinheiro. Hoje é mais fácil do que naquela época. Tem faculdade de graça, cursos de graça, coisa que naquela época não tinha. Basta ter fé em Deus e vontade de vencer”, afirma Daniel.

(Nogueirense)

Assista ao novo documentário Opostos, que conta a história do Dr. Cietto e do Dr. Daniel, aqui.

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Educação Domiciliar no Brasil (Homeschooling)

Estimular o contato entre a criança e os livros é superimportante (Foto: Thinkstock)
Educação domiciliar!

Educar os filhos em casa tem se tornado uma opção cada vez mais atraente para os brasileiros. Embora o modelo ainda não seja legalizado no Brasil, 3,2 mil famílias já aderiram ao homeschooling, que, em 2016, atendeu a cerca de 6 mil crianças, segundo a Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned). O mais surpreendente é que este número dobrou em um ano – e é, provavelmente, ainda maior, já que muitas famílias não divulgam sua opção por medo de serem denunciadas.

O assunto é polêmico e continua acendendo uma forte discussão legal pois a legislação brasileira não é clara em relação à educação domiciliar: o método não é, de fato, proibido, mas segundo o Estatuto da Crianças e do Adolescente e a Constituição, a matrícula na rede regular de ensino é obrigatória e a falta de frequência é compreendida como negligência dos pais. Para especialistas que são contra o homeschooling, o problema desse sistema não se reduz apenas à perda de conteúdo. Eles defendem que estudar em casa tira da criança a chance de aprender com a diversidade e com as experiências da convivência em grupo, além de afetar seu desenvolvimento cultural, afetivo e até cognitivo.

Isso parece não desacelerar seu crescimento: a cada dia surgem novos grupos nas redes sociais que reúnem famílias interessadas em oferecer uma educação “mais completa” para seus filhos, já que consideram as escolas despreparadas e pouco atenciosas com as crianças. Em casa, as crianças não ficam sem suporte: elas seguem um roteiro definido, com uso de apostilas e livros baseados no currículo formal escolar, mas a metodologia é diferente – e exige mais disciplina. Esses pais e mães defendem, ainda, que a socialização das crianças é mais natural quando elas escolhem seus grupos espontaneamente – e não apenas pelo fato de estudarem no mesmo local. A rotina também é complementada com atividades extracurriculares. Mas, para fazer valer a educação dos filhos, muitos pais precisam ir à Justiça.

Vale lembrar que, caso o homeschooling seja legalizado, será preciso uma regulamentação que padronize a forma como o ensino domiciliar ocorra para garantir que as crianças inseridas em sistemas diferentes do que o escolar estejam, de fato, sendo educadas apropriadamente.

(Revista Crescer, 11/01/2017)

Educação domiciliar ganha força no Brasil e busca legalização

O Brasil possui cerca de 3 mil famílias que preferem ensinar as crianças em casa. Método difundido amplamente em outros países ainda é polêmico

Frequentar a escola não faz parte da rotina dos cinco filhos da ilustradora Manoela Martins. As crianças de 8, 6, 3 e 2 anos e outra de 5 meses estudam em casa. Matemática, inglês, história geral e ciências não são ensinados por professores, mas pela própria mãe.

Para quem não está acostumado, o método da família Martins pode soar estranho. Difundido principalmente nos Estados Unidos e Portugal, mas também em outros países, o homeschooling – ou educação domiciliar – está ganhando força no Brasil. Uma pesquisa realizada em 2016 pela Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned), nos 26 estados brasileiros mais o Distrito Federal, revelou que o país possui 3.201 famílias que adotaram esse modelo de educação, um número que vem crescendo nos últimos anos (veja quadro).

Mesmo que a educação familiar ainda seja ilegal no Brasil, as motivações para arriscar por esse caminho são várias, desde a qualidade ruim das instituições de ensino no país até as de ordem econômica, religiosa, moral ou filosófica. E cada vez mais pais unem-se à Aned para conseguir o reconhecimento dos ensinamentos repassados aos filhos no lar.

“Optamos pelo homeschooling porque achamos que a qualidade do desenvolvimento físico, social e moral é melhor quando a criança está mais tempo em casa com a família”, defende Manoela. “A escola toma muito tempo do dia da criança e o homeschooling dá a possibilidade da criança aprender em espaços mais naturais compatíveis com o que vai ser a vida adulta, ela aprende na vida, não no simulado”, diz Manoela.

Ela explica que o método não é uma forma contrária à escola, mas um modelo que depende da realidade de cada família, de sua estrutura e dos seus objetivos. “Trabalhamos com bastante disciplina e temos uma rotina estruturada. Tem o horário de começar a estudar, as matérias de cada dia, a quantidade, as metas, o período destinado aos estudos. E, além disso, eles têm algumas atividades extracurriculares, também em horários fixos”, explica.

Para especialistas no tema, como Maria Celi Vasconcelos, doutora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que observou o ensino em diversas famílias e conduziu um estudo sobre a inserção de homeschooling na legislação educacional no Brasil e em Portugal, a educação domiciliar não prejudica a formação de crianças e adolescentes se for bem feita. “Eu não acho que o homeschooling possa atrapalhar o futuro dessas crianças. As crianças que eu entrevistei em nada se diferenciavam das que estavam na escola”.

Já a pedagoga com habilitação infantil, Jeanine Grivot, que acompanha alguns pais em Curitiba, um dos benefícios do método é o de respeitar o direito que os pais têm de educarem os seus filhos como quiserem. “Não vejo problema nem restrição na educação domiciliar quando os pais têm disponibilidade e empenho para fazer esse trabalho”.

É o caso de Manoela. Desde que ela e o marido optaram pelo homeschooling, ela precisou adaptar a sua rotina profissional. “Como sempre fiz home office, foi apenas uma questão de adequar a minha carga horária para poder me dedicar às crianças”.

Socialização

Apesar das vantagens apontadas pelos entusiastas, o método suscita fortes críticas no Brasil e no mundo. Uma delas é a dificuldade real dos pais de conseguirem que os filhos alcancem a excelência necessária para serem bons profissionais no futuro. Outra característica apontada como desvantagem é a falta de sociabilização.

“O modelo de educação em casa não apresenta vantagens”, afirma a doutora em psicologia da Unicamp, Ângela Soligo. “O homeschooling tira a oportunidade de conviver com os outros e de aprender a lidar com as diferenças de estilo, cultura, comunidade”, continua.

Crescimento

Confira a evolução de famílias que adotaram a educação domiciliar no Brasil em 5 anos. Em apenas três estados não foi identificada nenhuma família homeschool ou unschool: Acre, Roraima e Tocantins.

*Até 2 de março. **Rio Grande do Sul: dado indisponível.

Fonte: Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned). Infografia: Gazeta do Povo.

O que diz a lei

A legislação brasileira não trata especificamente do homeschooling, o que dá margem para interpretações. De acordo com a Constituição, a educação é dever do Estado e da família. Para a Lei de Diretrizes e Bases da Educação e para o Estatuto da Criança e do Adolescente, os pais ou responsáveis têm a obrigação de matricular os seus filhos nas escolas.

Além disso, o artigo 246 do Código Penal assegura que o comportamento divergente, sem justa causa, pode ser considerado crime de abandono intelectual, sendo a pena aplicada de detenção, de 15 dias a um mês, ou multa.

Apesar das complicações, o diretor jurídico da Associação de Educação Domiciliar (Aned), Alexandre Magno Fernandes Moreira, defende que o método não é ilegal. “É possível interpretar o homeschooling como legal com base na Constituição e nos Tratados de Direitos Humanos, mas como o assunto é novidade, nem sempre os operadores jurídicos aceitam”.

A pesquisadora Maria Celi Vasconcelos, da UERJ, explica que a regulamentação do homeschooling respeitaria a autonomia dos pais e possibilitaria a fiscalização do que é ensinado. “Nos países em que o homeschooling está legalizado, como em Portugal, as crianças são matriculadas em uma escola, fazem avaliação e há a proteção no ensino, não consiste simplesmente em tirar os filhos da escola e deixá-los em casa, há um controle”, diz.

Quando não há aceitação jurídica, os pais enfrentam processos e muitas vezes acabam pagando multas. De acordo com Moreira, a Aned cuida hoje de seis processos pelo país, um deles tramita no Supremo Tribunal Federal (STF). “Esse é um processo fundamental porque ele está discutindo a constitucionalidade da educação domiciliar, ou seja, a partir do momento que o Supremo disser que é constitucional, qualquer insegurança jurídica acabou. Mas, se disser ao contrário, será complicado para as famílias”.

(Gazeta do Povo, 8/05/2016)

Mãe em Curitiba luta pelo direito de ensinar o filho em casa

Cerca de 3,2 mil famílias no Brasil aguardam decisão do STF para ter a autorização legal para praticar o ‘homeschooling’

A visita de um oficial de justiça à casa da pedagoga Viviane Canello Strapasson confirmou mais uma briga jurídica no Brasil de famílias que querem ter o direito de ensinar os filhos em casa. Além do processo contra ela, ajuizado pelo Ministério Público do Paraná (MP-PR), outros 19 tramitam em mais estados. No país, pelo menos 3,2 mil famílias optaram pelo chamado homeschooling, apesar dessa modalidade de ensino regular não ser permitida pelo artigo 55 do Estatuto da Criança e do Adolescente.

O processo nasceu após uma comunicação de um suposto “abandono intelectual” de Viviane em relação ao filho Pietro, de 6 anos. Descontente com o tratamento recebido pela criança em uma escola pública e depois em uma instituição privada e após conhecer outras famílias que ensinam seus filhos em casa, Viviane decidiu usar seus conhecimentos como pedagoga para fazer o mesmo. O que ela não contava era com uma denúncia feita contra ela no Conselho Tutelar, encaminhada posteriormente ao MP-PR.

A denúncia resultou em uma medida de proteção assinada pela promotora Sílvia Galesi Campelo, onde há o pedido de que a criança seja matriculada de forma urgente e por coação, caso seja necessário. A decisão desencadeou nas redes sociais mensagens de apreensão e insegurança em grupos de pais que lutam pelo direito de fazer o ensino domiciliar.

Defesa

A estratégia dos advogados de defesa, Victor Hugo Domingues e Frederico Junkert, é pedir a suspensão do procedimento até que seja julgada uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a constitucionalidade do ensino domiciliar. “Também vamos sustentar que não existe nesse caso nenhum tipo de abandono intelectual, muito pelo contrário. Há uma preocupação clara da mãe, que não concorda com o sistema de educação na cidade por não fornecer as condições necessárias para educar bem a criança”, afirma Victor.

Viviane conta que alfabetizou o filho em casa e que teve experiências não muito positivas nas escolas. “Como sou professora e soube de muitos casos no Brasil de ensino em casa, optei por isso e acho que, atualmente, seria a melhor opção para o meu filho”, afirma Viviane.

Clandestinidade e sofrimento

O ensino domiciliar é propagado com força em outros países, principalmente nos Estados Unidos, e é motivado pela insatisfação dos pais com a educação regular. “Uma característica comum em todas essas famílias no Brasil é uma forte crítica à escola. Muitas delas fizeram tentativas de colocar os filhos em diversas instituições e ficaram decepcionadas”, explica Maria Celi Chaves Vasconcelos, professora do programa de pós-graduação em Educação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que entrevistou famílias com educação domiciliar em Portugal e no Brasil.

De acordo com a pesquisadora, a falta de uma lei que regulamente a educação domiciliar é causa de sofrimento para os pais, que enfrentam dificuldades jurídicas, além da pressão de amigos, familiares e vizinhos. Ao mesmo tempo, para que não ocorra o abandono intelectual dessas crianças, seria necessário garantir algum tipo de acompanhamento, como existe em Portugal, onde os alunos de ensino domiciliar são matriculados e comparecem a exames todos os anos.

Luciane Muniz Barbosa, pesquisadora do tema e professora da Faculdade de Educação da Unicamp, cita o artigo 26 de Declaração Internacional de Direitos Humanos para defender o direito das famílias de escolherem o gênero de educação dos seus filhos. Mas ela alerta que as famílias não podem se fechar à atuação do Estado. “O problema que vejo é que muitas famílias que defendem e praticam o homeschooling não querem qualquer tipo de supervisão, indicando que essa seria uma interferência do Estado em seu direito de escolha individual”, afirma, em entrevista por e-mail. “Quanto a isso, reitero que precisamos nos atentar às caraterísticas e índices de violência e outros que afetam as crianças no Brasil, e defendermos o direito à educação e proteção integral de todas as crianças. É preciso pensar que estamos em vias de regulamentação de algo que afetará o direito de todas as crianças e jovens e não somente de algumas famílias em particular”, frisa.

As vantagens e desvantagens do homeschooling

Não é por acaso que o ensino domiciliar cresce no Brasil e no mundo. Pesquisadores que estudam o fenômeno apontam inúmeras vantagens que fazem com que os pais optem por esse caminho. Ao lado delas, também há desvantagens, mas que parecem não ser consideradas importantes para essas famílias.

“Entre as vantagens está a possibilidade de atenção individual e condução do ensino respeitando as caraterísticas individuais da criança e o bom resultado acadêmico dos estudantes homeschoolers e seu ingresso nas universidades”, explica Luciane Muniz Barbosa, pesquisadora do tema e professora da Faculdade de Educação da Unicamp. Além disso, outros fatores também estimulam a prática, como o maior tempo e oportunidade para a criança estar com a família e também de aprender por diferentes formas e métodos.

A falta de socialização costuma ser o primeiro argumento contrário ao ensino domiciliar, mas é fraco. A literatura internacional mostra que a família, os vizinhos, os amigos e, sobretudo, os avanços tecnológicos, possibilitam que as crianças que aprendem em casa não se isolem ou sofram com isso.

“A ausência da escola não leva necessariamente a uma falta de socialização. Ao contrário, os argumentos contra a socialização oferecida pela escola são vários, por segregarem as crianças por idade e promoverem socialização somente entre os pares; questões de violência e bullying; formas de ensinar o desrespeito; entre outras”, diz Luciane. “É preciso desmistificar ‘o mito da socialização’, como a literatura norte-americana traz, relacionado ao homeshcooling. É possível haver socialização negativa ou restrita estudando em casa ou na escola”, afirma.

Por outro lado, a pesquisadora aponta como preocupações duas questões presentes no homeschooling. “Primeiro, a importância exagerada que pode existir no mérito acadêmico em nome de uma perda do direito da criança à infância e tudo o que ela representa para o desenvolvimento do ser humano”, elenca Luciana, lembrando casos de famílias que solicitaram à Justiça o ingresso dos filhos na universidade antes da idade oficial estipulada. A segunda, seria que, de alguma forma, o direito à educação de crianças e adolescentes seja violado caso não haja um acompanhamento por parte do governo.

(Gazeta do Povo, 17/11/2016)

Vídeos

Para acessar o parecer: QUEM TEM MEDO DO HOMESCHOOLING? O FENÔMENO NO BRASIL E NO MUNDO.

Advogado e pastor comenta a situação atual da educação domiciliar no Brasil. (postado em 4/1/2017)

Edison Andrade. Para se afiliar à sua Associação: abdefamiliar@gmail.com

Declarações da educadora Ellen G. White

É no lar que a educação da criança deve ser iniciada. Ali está sua primeira escola. Ali, tendo seus pais como instrutores, a criança terá de aprender as lições que a devem guiar por toda a vida — lições de respeito, obediência, reverência, domínio próprio. (Orientação da Criança, p.17)

Jesus adquiriu Sua educação no lar. Sua mãe foi-Lhe a primeira professora humana. (A Ciência do Bom Viver, p.399)

Os pais mandam os filhos à escola; e ao fazê-lo pensam que os têm educado. Mas a educação é uma questão de maior amplitude do que muitos pensam: compreende todo o processo pelo qual a criança é instruída, desde o berço à infância, da infância à juventude, e da juventude à maturidade. (Orientação da Criança, p.26)

Para os primeiros oito ou dez anos da vida de uma criança, o campo ou o jardim é a melhor sala de aula, a mãe é o melhor professor, a natureza o melhor livro. (Educação, p.208)

É costume enviar crianças muito novas à escola. Exige-se delas estudarem nos livros coisas que sobrecarregam a mente infantil. … Tal procedimento não é sábio. (Fundamentos da Educação Cristã, p.416)